Como é viver num país onde o governo fecha os bares, e abre as escolas. E como está nosso dia-a-dia aqui na Inglaterra relativo a isso, nesses tristes tempos Covid. (No fim do meu relato, acrescentei outro, antagônico, de uma querida daqui que me trouxe outra realidade, infelizmente bem diferente).
Aqui em Oxford, o grande movimento do governo em relação ao Covid se baseia no slogan “NÃO ESPALHE O VÍRUS” – fique em casa, proteja o NHS, salve vidas. Posição governamental maior é relativo ao CUIDADO; havendo os sintomas de febre e tosse contínua, fique vc e os seus em casa, busque diagnóstico, se auto-isole e tenha ao respeito com o próximo.
Eu cheguei em agosto aqui, férias de verão. O movimento de Lockdown forte estava se encerrando e as pessoas estavam começando a desfrutar das férias com as crianças: orientação de uso de máscaras em espaços pequenos e lojas, distanciamento social, higiene das mãos, atenção. As coisas todas foram parcialmente abertas. As pessoas estavam indo aos parques com as crianças, (Júlia brincou muitos nos playgrounds públicos lotados de crianças sem máscara em agosto e setembro) museus, restaurantes e lojas abertas, com protocolos de atendimento sendo exigidos – e cumpridos. Mas vimos muitos comércios ainda fechados e vários falindo, com portas e vitrines fechadas: pequenas livrarias, gráficas, lojas de roupa, bares… sim, há uma grande crise, gente perdendo emprego. Quem pode trabalhar de casa, assim está fazendo até agora.
Então começaram as aulas em setembro. Todas as crianças na Inglaterra voltaram às escolas, mesmo os berçários. E para as crianças acima de 4/5 anos, não temos escolha, a criança TEM QUE IR.
As escolas aqui em Oxford, pelo menos até a sexta série, que é a escola que a Ju frequenta, tem no máximo de 17/ 18 alunos por classe e somente um grande turno de aula: inicia de manhã, almoça na escola e sai por volta das 3h30.
Ao nosso redor, desde Setembro, dentro da escola da Ju tivemos notícia de apenas duas classes “bolhas” serem isoladas e ficando em casa 14 dias após um aluno apresentar sintomas.
Os cuidados que vejo ativamente a escola tomar são:
- Que alteraram os horários de entrada e saída de todas as turmas para entrarem em grupos menores e separados, as crianças são recebidas todas no pátio e ficam em fila para entrarem na escola tanto para entrar quanto para sair. Na saída os pais entram nesse pátio, em fila com distância, de máscara e cada um pega sua criança e tentamos sair em ordem. Tem funcionários controlando a formação das filas, entradas e saídas, o diretor está sempre presente acompanhando, o clima é tranquilo. Cada grupo de dois anos, (5as e 6as, 3as e 2as séries) entra e sai da escola com uma diferença de 15 minutos entre si.
- As crianças entram para as classes, e todos os dias, todo mundo tem sua temperatura checada nessa entrada, e ficam a maioria do tempo lá dentro. As janelas ficam abertas para ventilar, somos orientados a mandá-los com várias camadas de roupa para tirar, se for necessário. Recebem o lanche na carteira e os horários de interação física e exercício se restringem alguns 15 minutos de educação física 2x por semana. Ficam restritos à interação somente com suas “bolhas”. Eles não brincam no parquinho, não ficam correndo no pátio e os professores e a equipe pedagógica usam máscara nas entradas e saídas das crianças. Nos trânsitos e movimentos só os adultos usam máscara. Dentro da sala de aula ninguém usa máscara, nem a professora, nem os alunos.
- As crianças não trazem nem levam material da escola. Só a própria garrafa de água. Independente da pandemia, todo o material que as crianças usam é fornecido pela escola. E para evitar contato, não estão trazendo nem a tarefa de casa, que é “entregue” virtualmente por uma plataforma on-line super bem estruturada nas sextas, para serem feitas até terça.
- A secretaria da escola só recebe os pais para algo excepcional, todo o resto é feito por telefone ou on-line por uma excelente plataforma própria de gerenciamento da escola (comunicação, pagamentos, autorizações).
Apesar de tudo isso as crianças parecem felizes, animadas e adaptadas. Percebo um sistema organizado e estruturado que proporciona uma relativa segurança à todos: poucos alunos por turma, comunicação ativa entre a escola e os pais, recursos disponíveis para as escolas executarem todos esses protocolos, muito esforço para fazer tudo isso acontecer. Mas tenho certeza que os professores sentem medo, assim como a gente.
O início do outono aqui trouxe temperaturas de 2 a 10 graus diariamente. Em novembro houve uma vacinação gratuita de gripe na escola para as crianças (onde cada família autorizava ou não a aplicação). Autorizamos, a vacina é inalada e Juju teve uma reação bem leve de coriza e tosse, mas que passou rapidinho, e não deixou de ir para a escola.
Estamos numa escala alta de cuidados definida pelo governo, assim como é por aí, por região e faixas de risco, baseados em números de contaminação e mortes. Só que a tal da “segunda onda” chegou. Tivemos um Lockdown bem restrito o mês de novembro todo, para conter o avanço do vírus que esse período de liberdade do verão proporcionou, como em toda Europa. De novo, como foi em maio/junho, só abriu aqui os essenciais (serviços básicos, educação, saúde e alimentação para levar para casa) e as pessoas ficaram em casa, com regras mais rígidas e restritas. É um movimento para estancar a subida nos números e dar um suporte para uma reabertura mais controlada para o período de consumo de Natal. Agora em Dezembro o Lockdown cessou, e a roda começou a girar de novo, controlada. Em uma semana as crianças entram de férias até 05 de Janeiro.
Tem grupo negacionista? Tem. Tem gente que reclama das medidas? Tem. Mas são minoria. Fala-se das vacinas nos noticiários? Sim, mas não o tempo todo. O foco é o que temos para hoje, e como lidar com as realidades da melhor maneira possível. O nível coletivo de consciência é alto. Tomamos cuidado. Lavamos as mãos, usamos máscaras, álcool-gel, limpamos as compras, roupas vão para a lavadora com muito mais frequência. Aqui eu e Júlia, com vários trânsitos nesses meses, não tivemos ainda contato com o vírus, felizmente.
E é assim que está sendo aqui. Abre, fecha, abre, controla, cuida, tentativas de preservar, respeitar, não deixar espalhar… prioridades definidas e sendo cumpridas. Todos fazendo o melhor possível. E apesar de tudo, temos paz justamente por sabermos que o olhar e o que se tenta fazer é para o melhor de todos. Acho.
Desejo imensamente paz para vcs aí tbém. Isso faz bastante diferença.
Agora, olhem só, por outro lado, um outro relato de uma amiga que tenho em Londres, e que nos traz outro olhar e realidade bem diferente, aqui mesmo, a alguns kilômetros de Oxford:
“Interessante o teu relato, Ju! Aqui em Londres e na maioria do país a realidade é diferente, escolas secundárias estão fazendo o que podem, mas é muito difícil controlar uma média de 1500 alunos entre 11 e 18 anos e seguir as regras de distanciamento social e higiene. Na escola da minha mais velha e isolamento de year groups toda a semana desde setembro e mais da metade dos professores infectados e eles tendo que contratar temporários. Um verdadeiro caos. Além disso, não há budget para bancar laptops para alunos mais pobres e esses acabam perdendo a chance de aprender de forma remota e a desigualdade só aumenta. Nunca se usou tanto foodbank, serviços sociais atolados de casos, hospitais em crise. E uma Inglaterra vítima de um governo austero, conservador e egoísta. Me quebra o coração, porque é a minha casa, mas há muito para melhorar!
(…) Fiquei com medo de você achar que eu estava negando ou fazendo oposição ao seu relato, mas é exatamente o que você disse, a sua realidade e um recorte, é um subúrbio de Oxford e uma escola primária, e que bom que tudo está sob controle, porém a realidade do país como um todo é outra. Não só as escolas secundárias estão perdidas, mas a situação nas universidades é caótica e assustadora, alunos presos em dormitórios, em greve, sem poder voltar pra casa, pedindo mais suporte para saúde mental e não tendo…e o maior nível de desemprego desde o governo da Thatcher há 40 anos e a pobreza aumentando em níveis recorde… isso em um país tão rico e desenvolvido. Eu fico passada. E nem vou entrar na questão do brexit por que senão vou ter uma úlcera! Hehe. Que essa pandemia sirva para que as pessoas votem melhor nas próximas eleições.”
Agora, se aqui está assim, imagina como será no Brasil, em país sem recurso, sem lei, sem vez? Tenho amados lá, sem aula, nem plano desde março. Vejo um movimento de pediatras bem articulado pedindo o retorno das aulas. Mas como seria em escolas públicas, onde são tantas, tantas, tantas as deficiências? Sinto muito por eles. Sinto muito. Muuuito.
É, não há paz não, gente. Que tristeza.