CoisadeMãeeFilha – filmes 1

“A menina que roubava livros”.
Aqui qdo estourou a guerra semana passada minha criança de 11 anos falou: “Uau, vou ver uma guerra de verdade!”
Perguntei pra ela o que ela achava que era uma guerra. E é claro que a resposta foi absurda e fantasiosa.
Para geração que acha que guerra é como uma partida de videogame e pessoas são avatares, um banho de realidade é preciso.

Falei, “Filha, vem cá, tem um filme que vamos ver… não queria que vc visse tão cedo mas vai ser preciso”.
Assistimos “A menina que roubava livros”.

Ao final, o tal choque de realidade.
“Filha, pensa nessas pessoas como qualquer povo que se vê vítima de uma guerra. Não só judeus, mas qqr povo nesse planeta que tem seu mundo invadido e pilhado em nome do poder e dominação de um outro povo. Essa menina poderia ser qqr uma, alemã, brasileira, inglesa, africana, ou de Bangladesh ou Índia como suas melhores amigas na escola hj aqui. Essa menina poderia ser você.”

Nenhuma guerra é justa, nunca, em tempo ou lugar algum. Colocamos toda a força e potencial humano que poderia ser para construção e evolução para o caos e a destruição.

Em nome de quê, gente?!

CoisadeMãeArtista – Vamos ver exposição, filha?

Ontem carreguei Júlia para uma exposição de arte com mais de 300 trabalhos para ver. Perguntou sobre o que era, eu eu disse que sejam mais de 300 obras dos artistas de Oxford para ver. Ela retruca “mas mãe, vc fica 5 minutos em frente de cada quadro, vai demorar pra sempre!!!” É claro que ela resiste, diz que prefere ficar em casa, mas eu insisto e uso minha autoridade para trazê-la.
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No início não se envolve, a cabeça e os hormônios aos quase 11 já a carrega para outros lugares. Mas eu tento, tento, tento e consigo. As obras selecionadas dos artistas não estavam expostas lado a lado. E assim a desafiava a encontrar a outra obra do mesmo artista, para ela buscar, observar e dar “match” na linguagem, traço, temática, pincelada, estilo, maneira de apresentar (moldura, pintura ou não da borda), similaridade na maneira de nomear a obra… tipo: “isso! Mas tem mais dois detalhes ainda que faltam observar!” e assim se passaram quase 1:30 de visita, de onde ela saiu feliz e cheia de ideias.
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Tentar envolver a criança é um trabalho muito duro. Mas gente! É preciso! Muito mesmo. Ampliar os horizontes das crianças além telas virtuais é uma necessidade urgente. E cada tela real que apresenta uma obra traz um universo inteiro para decodificar. Não deixem de buscar alfabetizar suas crianças com a linguagem artística. É ganho para vida. Amplia imenso!

Yesterday I took Julia, my daughter to an art exhibition here in Oxford, with more than 300 works to see. When I said that were more than 300 pieces, she exclaimed: “but mom, you use to stay 5 minutes in front of each work, it will last forever!!!” Of course she resists, prefers to stay home, but I insist and use my authority to bring her. In the beginning she doesn’t get involved, the head and hormones at almost 11y carry her to other places. But I try hard and I do it.
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Selected works by the artists were not displayed side by side. And so I challenged her to find another work by the same artist, searching, observing and matching the language, theme, brushstroke, style, way of presenting (types of frame, painting or not the edges), similarity in the way the artist name the work… like: “yeah! But there are two more details that still need to be noted!” and so almost 1h30 of the visit passed, from which she left happy and full of ideas.
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Trying to involve kids is very hard work. But t’s so needed! Very much. Expanding children’s horizons beyond virtual screens is an urgent need. And each real screen that presents a work brings an entire universe to decode. Be sure to try to teach your children how to read and write with artistic language. It’s earned for life. Amplify immensely all horizonts.

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Um desenho, muita história

Guardei todos os desenhos feitos por minha filha, desde o primeiro, até ano passado. Uma mudança de curso inesperada me obrigou a tomar uma decisão muito difícil. Era preciso me desfazer de muitos deles (os selecionados ficaram na casa da avó, em duas grandes caixas). Era preciso trazer comigo apenas o que encontraria espaço em duas malas de 29 kgs, junto com as coisas mais necessárias e importantes da vida. Eu desenho desde criança. Júlia cresceu entre folhas, lápis e pincéis. Tenho quadros, pinturas, pastéis, óleos, uma série de pastas com meus desenhos desde os 12 anos, uns 800… Mas nos acompanharam apenas os desenhos de família que Júlia fez. Uma pastinha mirrada com 29 folhas. Desde a sua primeira representação “garatujada e girinada” de nós, feita aos 2 anos, até o último feito antes da mudança. E um deles, talvez o mais importante, é sobre o qual conto a história aqui.
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Em 2015 nossa família teve que lidar com a perda de uma segunda gravidez muito desejada. Compartilhamos com Julia, que tinha 6 anos, esse sonho interrompido, e ela sempre mostrou muita maturidade e sensibilidade a respeito disso.
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Um dia, veio mostrar o desenho da família que tinha feito. Ela a partir desse registro, sempre passou a inserir, além do pai, mãe, ela e nossa labradora, tbém nossas duas gatinhas, que partiram qdo ela tinha 4 anos, e às vezes, dois passarinhos caídos que tentamos cuidar, mas que tbém se foram.
Aí, viro a página, e ali está um desenho incompleto, interrompido… e ela explica, e nunca esqueci no dia as minhas lágrimas caindo, ao ouvi-la: “eu comecei colocando no seu colo nosso nenémzinho que partiu, mas parei porque sei que vc ia ficar triste, mamãe, aí fiz do outro lado, tá?”
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Um desenho não acabado pode ter tanta força e importância quanto um completo. Um desenho é muito mais que um conjunto de rabiscos e formas. Um desenho pode ter em si, contido, história, memória, empatia, amor… e às vezes até parte da alma da gente.
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Por Juliana Cassab e Júlia Cassab @juliacassab
Desde 2002, até hoje.

Pandemia e escola na Inglaterra

Como é viver num país onde o governo fecha os bares, e abre as escolas. E como está nosso dia-a-dia aqui na Inglaterra relativo a isso, nesses tristes tempos Covid. (No fim do meu relato, acrescentei outro, antagônico, de uma querida daqui que me trouxe outra realidade, infelizmente bem diferente).

Aqui em Oxford, o grande movimento do governo em relação ao Covid se baseia no slogan “NÃO ESPALHE O VÍRUS” – fique em casa, proteja o NHS, salve vidas. Posição governamental maior é relativo ao CUIDADO; havendo os sintomas de febre e tosse contínua, fique vc e os seus em casa, busque diagnóstico, se auto-isole e tenha ao respeito com o próximo.

Eu cheguei em agosto aqui, férias de verão. O movimento de Lockdown forte estava se encerrando e as pessoas estavam começando a desfrutar das férias com as crianças: orientação de uso de máscaras em espaços pequenos e lojas, distanciamento social, higiene das mãos, atenção. As coisas todas foram parcialmente abertas. As pessoas estavam indo aos parques com as crianças, (Júlia brincou muitos nos playgrounds públicos lotados de crianças sem máscara em agosto e setembro) museus, restaurantes e lojas abertas, com protocolos de atendimento sendo exigidos – e cumpridos. Mas vimos muitos comércios ainda fechados e vários falindo, com portas e vitrines fechadas: pequenas livrarias, gráficas, lojas de roupa, bares… sim, há uma grande crise, gente perdendo emprego. Quem pode trabalhar de casa, assim está fazendo até agora.

Então começaram as aulas em setembro. Todas as crianças na Inglaterra voltaram às escolas, mesmo os berçários. E para as crianças acima de 4/5 anos, não temos escolha, a criança TEM QUE IR.

As escolas aqui em Oxford, pelo menos até a sexta série, que é a escola que a Ju frequenta, tem no máximo de 17/ 18 alunos por classe e somente um grande turno de aula: inicia de manhã, almoça na escola e sai por volta das 3h30.
Ao nosso redor, desde Setembro, dentro da escola da Ju tivemos notícia de apenas duas classes “bolhas” serem isoladas e ficando em casa 14 dias após um aluno apresentar sintomas.

Os cuidados que vejo ativamente a escola tomar são:

  • Que alteraram os horários de entrada e saída de todas as turmas para entrarem em grupos menores e separados, as crianças são recebidas todas no pátio e ficam em fila para entrarem na escola tanto para entrar quanto para sair. Na saída os pais entram nesse pátio, em fila com distância, de máscara e cada um pega sua criança e tentamos sair em ordem. Tem funcionários controlando a formação das filas, entradas e saídas, o diretor está sempre presente acompanhando, o clima é tranquilo. Cada grupo de dois anos, (5as e 6as, 3as e 2as séries) entra e sai da escola com uma diferença de 15 minutos entre si.
  • As crianças entram para as classes, e todos os dias, todo mundo tem sua temperatura checada nessa entrada, e ficam a maioria do tempo lá dentro. As janelas ficam abertas para ventilar, somos orientados a mandá-los com várias camadas de roupa para tirar, se for necessário. Recebem o lanche na carteira e os horários de interação física e exercício se restringem alguns 15 minutos de educação física 2x por semana. Ficam restritos à interação somente com suas “bolhas”. Eles não brincam no parquinho, não ficam correndo no pátio e os professores e a equipe pedagógica usam máscara nas entradas e saídas das crianças. Nos trânsitos e movimentos só os adultos usam máscara. Dentro da sala de aula ninguém usa máscara, nem a professora, nem os alunos.
  • As crianças não trazem nem levam material da escola. Só a própria garrafa de água. Independente da pandemia, todo o material que as crianças usam é fornecido pela escola. E para evitar contato, não estão trazendo nem a tarefa de casa, que é “entregue” virtualmente por uma plataforma on-line super bem estruturada nas sextas, para serem feitas até terça.
  • A secretaria da escola só recebe os pais para algo excepcional, todo o resto é feito por telefone ou on-line por uma excelente plataforma própria de gerenciamento da escola (comunicação, pagamentos, autorizações).

Apesar de tudo isso as crianças parecem felizes, animadas e adaptadas. Percebo um sistema organizado e estruturado que proporciona uma relativa segurança à todos: poucos alunos por turma, comunicação ativa entre a escola e os pais, recursos disponíveis para as escolas executarem todos esses protocolos, muito esforço para fazer tudo isso acontecer. Mas tenho certeza que os professores sentem medo, assim como a gente.

O início do outono aqui trouxe temperaturas de 2 a 10 graus diariamente. Em novembro houve uma vacinação gratuita de gripe na escola para as crianças (onde cada família autorizava ou não a aplicação). Autorizamos, a vacina é inalada e Juju teve uma reação bem leve de coriza e tosse, mas que passou rapidinho, e não deixou de ir para a escola.

Estamos numa escala alta de cuidados definida pelo governo, assim como é por aí, por região e faixas de risco, baseados em números de contaminação e mortes. Só que a tal da “segunda onda” chegou. Tivemos um Lockdown bem restrito o mês de novembro todo, para conter o avanço do vírus que esse período de liberdade do verão proporcionou, como em toda Europa. De novo, como foi em maio/junho, só abriu aqui os essenciais (serviços básicos, educação, saúde e alimentação para levar para casa) e as pessoas ficaram em casa, com regras mais rígidas e restritas. É um movimento para estancar a subida nos números e dar um suporte para uma reabertura mais controlada para o período de consumo de Natal. Agora em Dezembro o Lockdown cessou, e a roda começou a girar de novo, controlada. Em uma semana as crianças entram de férias até 05 de Janeiro.

Tem grupo negacionista? Tem. Tem gente que reclama das medidas? Tem. Mas são minoria. Fala-se das vacinas nos noticiários? Sim, mas não o tempo todo. O foco é o que temos para hoje, e como lidar com as realidades da melhor maneira possível. O nível coletivo de consciência é alto. Tomamos cuidado. Lavamos as mãos, usamos máscaras, álcool-gel, limpamos as compras, roupas vão para a lavadora com muito mais frequência. Aqui eu e Júlia, com vários trânsitos nesses meses, não tivemos ainda contato com o vírus, felizmente.

E é assim que está sendo aqui. Abre, fecha, abre, controla, cuida, tentativas de preservar, respeitar, não deixar espalhar… prioridades definidas e sendo cumpridas. Todos fazendo o melhor possível. E apesar de tudo, temos paz justamente por sabermos que o olhar e o que se tenta fazer é para o melhor de todos. Acho.

Desejo imensamente paz para vcs aí tbém. Isso faz bastante diferença.


Agora, olhem só, por outro lado, um outro relato de uma amiga que tenho em Londres, e que nos traz outro olhar e realidade bem diferente, aqui mesmo, a alguns kilômetros de Oxford:

“Interessante o teu relato, Ju! Aqui em Londres e na maioria do país a realidade é diferente, escolas secundárias estão fazendo o que podem, mas é muito difícil controlar uma média de 1500 alunos entre 11 e 18 anos e seguir as regras de distanciamento social e higiene. Na escola da minha mais velha e isolamento de year groups toda a semana desde setembro e mais da metade dos professores infectados e eles tendo que contratar temporários. Um verdadeiro caos. Além disso, não há budget para bancar laptops para alunos mais pobres e esses acabam perdendo a chance de aprender de forma remota e a desigualdade só aumenta. Nunca se usou tanto foodbank, serviços sociais atolados de casos, hospitais em crise. E uma Inglaterra vítima de um governo austero, conservador e egoísta. Me quebra o coração, porque é a minha casa, mas há muito para melhorar!

(…) Fiquei com medo de você achar que eu estava negando ou fazendo oposição ao seu relato, mas é exatamente o que você disse, a sua realidade e um recorte, é um subúrbio de Oxford e uma escola primária, e que bom que tudo está sob controle, porém a realidade do país como um todo é outra. Não só as escolas secundárias estão perdidas, mas a situação nas universidades é caótica e assustadora, alunos presos em dormitórios, em greve, sem poder voltar pra casa, pedindo mais suporte para saúde mental e não tendo…e o maior nível de desemprego desde o governo da Thatcher há 40 anos e a pobreza aumentando em níveis recorde… isso em um país tão rico e desenvolvido. Eu fico passada. E nem vou entrar na questão do brexit por que senão vou ter uma úlcera! Hehe. Que essa pandemia sirva para que as pessoas votem melhor nas próximas eleições.”

Agora, se aqui está assim, imagina como será no Brasil, em país sem recurso, sem lei, sem vez? Tenho amados lá, sem aula, nem plano desde março. Vejo um movimento de pediatras bem articulado pedindo o retorno das aulas. Mas como seria em escolas públicas, onde são tantas, tantas, tantas as deficiências? Sinto muito por eles. Sinto muito. Muuuito.
É, não há paz não, gente. Que tristeza.