Sobre feminismo, Juju

“Desenho mulheres porque elas sofrem muito. E também as desenho porque são as pessoas mais importantes da minha família.” Não fui eu que disse isso, mas a Sheillah, uma menininha africana de 9 anos – https://bbc.in/2zv9BYv.
Eu também desenho mulheres desde criança. Seria também porque eu as vejo sofrerem? Sheillah me adiantou uns bons pares de sessões de terapia depois que a ouvi dizer isso tão lindamente.

Uma, duas, três amigas esse dias me questionaram sobre essa história de “mulheres protestando porque sofrem”.

E por isso vim falar de feminismo.
Quem rotula e cita as “malditas feministas e suas ações extremistas”, sabe que eu nunca sairia pelada para protestar ou impor minha visão sobre uma questão. TUDO tem seus lados extremos e entre eles um caminho contendo milhões de escolhas e nuances. Acredito que deve-se ver, saber de tudo, pensar e questionar sempre, mudar quando necessário, e se valer do que é positivo que vem nesses “pacotes”. Sei bem que no universo ativista feminista há ações e idéias extremadas sim, muitas que causam repulsa e com as quais eu também não concordo. Apropriadas, vividas e defendidas por alguns indivíduos e grupos em atos extremos, delas eu nunca tomaria parte. E não há nada que eu possa fazer em relação a quem o faz.
Só que no meio desse caminho, há um conjunto em essência, com o qual eu concordo e luto, e estou nele, por mim, por minha filha, por todas as mulheres da minha vida. E por isso, me declaro feminista.

Sob o grito “Sou feminista!”, cada um imprime sua vivência pessoal, e como em qqr coisa, para entender o que se clama, é preciso ou muita empatia ou ter vivido na pele situações onde o respeito devido à mulher fez muita falta.
Para eu me declarar hoje feminista, demorou tempo, muita leitura, muita conversa e um processo de construção e entendimento muito profundo por que passei.

.Tenho uma irmã, socióloga, que aqui em Campinas, desde a década de 1980 participou ativamente de movimentos e ações em favor aos direitos da mulher. Foi inclusive presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM) daqui, isso em 1997. Referência e exemplo para mim, o que ela foi, pelo que lutava e defendia me inspira muito.
.Tive um pai extremamente machista e um avô materno cuja definição machista chega a ser leve, de tão monstro que foi.
.Tenho uma pessoa muito próxima, muito amada que sofre absurdamente e tem uma vida restringida e abafada em potencialidades e conquistas por conta do preconceito que enfrenta por sua opção sexual. Ela é uma das melhores pessoas que conheço no mundo, e seria capaz de mover montanhas com sua capacidade de transformação, que não se legitima, pois não tem força o suficiente para enfrentar o preconceito que sofre. E o que ela vive me afeta profundamente.
.Tenho mulheres no meu convívio que lidam com os filhos e netos vivendo em situação de vulnerabilidade absurdas em vários pontos por não conseguirem se impor, nem receberem apoio e orientação corretas.
.Temo pelo que minha filha e sobrinha irão enfrentar em seus trânsitos pelo mundo.
Entendi recentemente através da forma como alguns homens lidaram e ainda lidam com essas mulheres todas aí da minha vida, que além dos desrespeitos comuns e que estamos tão familiarizadas, que há uma vasta e não declaradas formas de abusos além do sexual: moral, emocional, patrimonial, físico, psicológico. Cresci vendo muitos desses outros menos conhecidos acontecer bem na minha frente, sem estar ciente disso. Ah! São tantas coisas… tantos pontos…

Para quem nasce branca, tem uma família que a protege, a valoriza e a impulsiona, vive numa região privilegiada, transita e sai para estudar, viajar, trabalhar, se divertir, é fácil falar que feminismo é desnecessário. Não percebem que estão colhendo fruto de muitas batalhas vividas por outras que vieram antes delas. É fácil se colocar assim qdo não se toma contato direto com outras realidades. É cômodo falar de vitimismo, qdo outras realidades absurdas que ainda vigoram por aí não tocam nem respingam em seu entorno.

Nasce mulher, pobre e negra no Brasil (ou mesmo nos EUA ou Europa) para ver.
Nasce mulher em país muçulmano, asiático e africano para ver.
Nasce mulher em país ocidental há uns 70 anos atrás para ver.
E se nada disso que eu disse valer, afirmo então que precisamos de feminismo porque há números que falam, e contra eles não tem argumentação (estão nos comentários*).

Representatividade. É legítimo que nós – mulheres que não concordam com o que coloca em risco anos de muita batalhas e conquistas – nos posicionemos. Assim, quem quer que seja que esteja nos comandos de qualquer instituição desse país, em que cargo que for, vai precisar olhar e reconhecer que há uma parcela importante na sociedade que precisa ser ouvida e não mais desrespeitada.

ilustra cassab

O feminismo que eu apóio defende direitos arduamente conquistados por uma legião de outras mulheres que vieram antes de mim. Não deveríamos sufocar a coragem de nos colocarmos, nem questionarmos a importância de nos posicionarmos. Com respeito e argumentos sólidos acima do resto, devemos fazê-lo. O caminho é longo. Tanto já se andou. Tanto se conquistou rumo a uma sociedade igualitária. Não podemos retroceder em conquista e avanço. Não podemos dar voz e vez de novo ao que deve ser deixado para trás.

Minha história, caminho e trajetória validam minha posição. Por tudo isso, não consigo calar e venho trazer questões tão pessoais a público. Sei que um textão na rede social hoje tem pouquíssima efetividade. Mas é o que eu posso fazer por hoje. Minha irmã Maria Erlinda teria orgulho dele, tenho certeza.
Em tempos frágeis, e estamos neles, é tempo de nos posicionarmos.

Nunca se esqueça de que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá de manter-se vigilante durante toda a sua vida.”
Simone de Beauvoir


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