Sobre as intoxicações eletrônicas na primeira infância

Em 2010, qdo Júlia nasceu eu ainda não tinha um Smartphone, mas um Ipod com acesso a internet me ajudou a não enlouquecer. Eu também tinha um Ipad “bem legal”, que qdo ela começou a firmar o corpo e “ver” algo, eu apresentava a ela com a Galinha Pintadinha tendo a impressão de que estava movimentando algo bom e positivo no nosso dia tão linear. E é sobre isso, e as CONSEQUÊNCIAS de um cenário todo que descrevo abaixo que é real para muitas de nós, que essa palestra trata. Ela aponta com lucidez e clareza os caminhos ruins que trilhamos no lidar com nossos filhos, derivados de toda a nossa solidão, insegurança, despreparo, hiperconectividade e avalanche de solicitações e informações que nos soterram hoje no quesito “sermos pais na era da internet”.

Para as queridas que estão na fase de cuidar de seus pequenos entre 0 e 3 anos, quem tbem tem filhos mais velhos, professoras, e quem mais tiver contato com crianças, recomendo ouvir o que ela tem a dizer. Achei importante demais tudo que ela falou.

Quando vejo amigas com recém-nascidos postando fotos de felicidade suprema no Facebook ou no Insta eu tenho certeza que a cultura da felicidade se reafirma de forma bastante injusta (salvo raras exceções).

Hoje na gravidez nos ensaios de gestantes da moda, nos vestem de fadas, princesas e santas com vestidos flutuantes, com cenários de sonhos encantados, onde a fotografia cumpre um papel de idealizar loucamente um sonho nada real. Eu particularmente não gosto dessas imagens. O período todo é muito diferente desse quadro as vezes pintado muito toscamente.

Mesmo nem todos os incômodos, ansiedades, calores e desconfortos da gravidez prenunciam na proporção real tudo que acontece com a gente nos primeiros três meses, ou no primeiro ano, ou no segundo ano da presença de um bebê na nossa vida. Ter filho é tarefa dura e exaustiva, e a nossa geração está mais sozinha do que qualquer outra nesse momento. Não temos avós, madrinhas e tias ao redor. Rodamos o mundo a procura de oportunidades de trabalho e “fundamos” família nova longe da aldeia de origem. Vi essa palestra e reconheci minha realidade materna dos primeiros tempos várias vezes no discurso dela. Isso porque vivi esse período não hoje, mas a cinco anos atrás, onde o cenário era ainda diferente, mas parte já era real. Minha empatia com as mulheres do mundo aumentou absurdamente depois que a Júlia nasceu. Meu olhar para com todas as mulheres do mundo mudou, me reconheci parte de um todo, percebendo que a maternidade seja talvez ao mesmo tempo (e loucamente) a experiência mais individual e o mesmo tempo coletiva a ser vivida por uma mulher.

Nos primeiros meses fiquei completamente desnorteada. Tinha feito “curso” de preparação, tinha lido alguns livros, mas não sabia nada da real condição de se cuidar de uma vida. Ter experimentado uma confusão e um medo nunca antes presente na minha vida fui muito, muito difícil. Os quatro primeiros meses de licença maternidade foram terríveis. Toda a família estava longe. Eu estava sozinha, todo o grupo social onde eu transitava estava lá fora tocando a vida. Os dias eram longos, as noites mais ainda. Lidar com com um bebê e suas demandas cíclicas (sono, choro, alimento, saciedade, cuidados, higiene, colo, fome, saciedade, sono, assim, sem fim), por mais ocitocina e amor que estivessem inundando tudo ali, era muito sofrido. Eu tinha uma vida ativa, agitada, meus dias eram todos diferentes um do outro, e aquele novo cenário vivido era extremamente cansativo e redundante. E eu estava sozinha. Marido com 5 dias de licença voltou a trabalhar. Vez em qdo aparecia uma visita. Mas na maioria do tempo era só eu, Júlia, e algumas telas. Lembrei muito de tudo isso ouvindo a Julieta falar. Essa palestra me trouxe tudo de volta, e me deu vontade de escrever sobre maternidade de novo, o que não faço há algum tempo.

Aqui compartilho uma versão editada apresentada pela TV cultura
https://youtu.be/CJCrRouBNAY,

E aqui a integral, que gosto mais, mas que exigem da gente duas horas de atenção – http://www.institutocpfl.org.br/2017/06/02/julieta-jerusalinsky-e-a-intoxicacoes-eletronicas-na-primeira-infancia/

De Julieta Jerusalinsky – Psicóloga pela UFRGS (1993), com especialização em clínica com bebês pela FEPI Argentina (1999), realizou mestrado (2003) e doutorado (2009) em Psicologia Clínica pela PUC.
“É inegável a importância da infância no resto da nossa vida. Por isso seria de se esperar que uma cuidadosa atenção fosse dada às nossas crianças. Aos estímulos produzidos pela cultura de cada época, as crianças reagem; através de seu comportamento, fala, linguagem e sintomas. Ela fala, questiona, informa sobre como estamos tratando a exposição dos nossos filhos ao virtual e possíveis consequências disso.”

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