CoisasdePuerpério: Voucher VALE-UMA-NOITE-DE-SONO-MAMÃE! Vale a sanidade de uma mulher

Para celebrar carinha nova do meu blog, trago para casa esse post meu que foi publicado originalmente no site no Portal Materno Colaborativo MinhaMãeQueDisse em 2014. Uma bem-humorada e realista visão sobre o puerpério, com direto a um voucher de presente. Foi uma experiência muito legal ter conteúdo meu lido e compartilhado com tanta gente. É longo, mas se você tá passando por essa fase hoje, eu juro que vale a pena ler. Bjuju carinhoso e muito obrigada pela visita. Espero que goste também do novo site.

Tem coisas de que pouco se fala quando estamos grávidas. Já fazia parte do seu vocabulário antes palavrões estranhos como puerpério, tricotomia, episiotomia ou lóquios? Parece que um silêncio coletivo sobre a dura realidade dos primeiros três meses após o nascimento do bebê se abate sobre a humanidade. Talvez seja uma forma de não desencorajar os incautos aventureiros a seguir o caminho da perpetuação da espécie, preservando assim a raça humana da extinção. Ou sei lá, a confusão mental vivida em função das situações todas que a gente passa nessa época e o amor imenso de mãe que experimentamos invadir cada célula do nosso corpo inibem e preservam a memória de rememorar esse tempo depois que ele passa. É a tal da memória seletiva, garantindo coragem para darmos continuidade à prole. Se não, como as pessoas iriam tentar um segundo filho com essas passagens todas vivas na cuca? E não cabe mesmo aos que gravitam em torno daquela supernova-barriga-universo em franca expansão a ousadia fica citando o lado B das coisas todas que acontecerão até que a ansiada e bem dita luz finalmente se der. Melhor calar. Será inevitável mesmo. E vai passar. Então não falemos sobre esse trimestre maluco.

Não falemos sobre o cansaço mortal que nos acomete depois do parto. Da volta chatíssima da anestesia. Das visitas indo e vindo num fuzuê sem tamanho no quarto do hospital (e como isso tudo fica muito confuso misturado à ansiedade e alegria imensa de ver o filhote prontinho ali, com todos os vinte dedinhos e pulmõeszinhos a toda, finalmente fora da nossa barriga).

Não falemos sobre cortes pós-parto no nosso corpinho. Sobre suas dores e incômodos X cuidados X pomadinhas X analgésicos X anti-inflamatórios X antibióticos que os famigerados pontos, sejam da cesárea (e suas sete camadas) ou da episiotomia, exigem de nós. E também das posturas nada bonitas que nosso corpo assume para amenizar os desconfortos trazidos. E do fato que, se o parto foi cesariana, o pós-operatório nos restringir absurdamente o contato ansiado, o pegar, o cuidar do nosso filhote como sonhamos por nove meses, pelo menos na primeira semaninha (ai, quero a minha mãe agora!!!).

Não falemos sobre hemorroidas (sem comentários).

Não falemos sobre pelos que crescem depois da tricotomia nascendo encravados e se transformando em outras coisas bem chatas (sem comentários também).

Não falemos sobre a barriga que continua grande, como se ainda estivéssemos grávidas de uns cinco meses (não, ela não desinfla instantaneamente) e sobre órgãos se reposicionando no nosso corpo (sente-se a bagunça a cada movimento).

Não falemos sobre aprender a amamentar. Das coisas doídas para lidar tipo peito com canal entupido e empedrado. Da nossa confusão em não sabermos realmente se o bebê mamou o suficiente, se está satisfeito (por que ele chora mesmo, e a gente sempre acha que é de fome). De marido e sogra em desacordo porque ela quer dar a mamadeira logo (o neném tá com fome, uai!) e ele acredita que devemos seguir firmes com o propósito da amamentação (e se o bebê pegar a mamadeira uma vezinha que seja, ele nuuuuunca mais vai querer o peito, como alguém muito didaticamente me fez o favor de explicar para ele). E a gente doida, se sentindo incapaz sem saber o que fazer no meio desse tiroteio todo (essa parte não era uma coisa natural e bela? as receitinhas seguidas na gravidez para preparar a mama não funcionaram por quê? por que não existe um medidor automático para eu acoplar no peito durante a mamada e saber quanto de leite meu bebê está ingerindo?).

Não falemos sobre a incerteza e a sensação de impotência por não sabermos identificar se o choro estridente e ininterrupto do(a) pequenino(a) é de cólica, sono, fome, dor, fralda molhada, calor ou frio (porque não nasce falando, Deus meu? e porque só minha mãe consegue acalmá-lo? o que vai ser de mim quando ela for embora?). Não falemos sobre lidar com ansiedades e inseguranças mil nos cuidados todos a serem tomados (o que é certo? o que é errado? o que pode? o que não pode? cadê um manual definitivo e absoluto de pediatria? para que mesmo serviu aquele curso? será que eu posso ligar mais uma vez para o pediatra à uma hora dessas? como assim não pode dar mais Funchicórea?).

Não falemos sobre hormônios em pane, meio que quase a zero X tudo meio inchado ou meio murcho X desejo de ver o marido, suas mãozonas imensas e todo o resto bem longe da gente (pois então, a sábia natureza trata de nos desprestigiar enquanto fêmeas para que nem você, nem seu companheiro tenham a menor intenção, mesmo remota, de procriar novamente pelo menos enquanto a sobrevivência da primeira cria não esteja perfeitamente garantida, e isso pode demorar um pouco mais que três meses para acontecer).

Não falemos sobre a sua casa, a sua cara, o seu cabelo, o seu corpo, o seu guarda-roupa e o seu casamento imersos no caos. Claro que se você tiver duas babás e uma folguista – todas de preferência com formação em enfermagem – uma ótima empregada, uma cozinheira, uma passadeira, um motorista, um personal trainer, um personal stylist, um marido muuuuuuito legal e mãe e/ou sogra/irmãs e cunhadas maravilhosas esse item e suas consequências nefastas sobre nossa saúde mental podem ser minimizadas (e esqueçamos e toquemos fogo em praça pública em todas as revistas que mostram as atrizes-cantoras-apresentadoras-membrasdarealeza do circo-mídia-mundo, em fase recém-mamãe-que-acabou-de-parir completamente lindas-despreocupadas-magras-e-louras. Além sim, de elas serem as únicas que realmente dispõem de um kit-arsenal como acima citado, elas são de plástico, gente, não existem. Acreditem).

Nossa, que horror! Em coro juntas, exclamemos. Pode acontecer uma coisa ou outra, mas pensar nisso tudo junto de uma vez só acontecendo com uma única pessoa é desesperador. Pode acontecer só uma parte. Apenas um ou dois itens talvez. Mas às vezes acontece tudo de uma vez sim. Comigo aconteceu boa parte dos itens listados acima, ou quase tudo, claro, porque tem coisas que a gente não comenta…

Mas espere, não acabou, existe um ingrediente final somado aos anteriores que tornam as coisas piores, sim muito piores: a Privação de Sono. Torturadores usam dessa estratégia como método de tortura para prisioneiros de guerra. E o seu bebê e tudo o que essa nova realidade exigirá de você, farão com que o seu sono, daquele jeito profundo, despreocupado, reconfortante, revigorante e ininterrupto seja apenas uma vaga lembrança de uma vida passada. E que você muitas vezes se sinta como um verdadeiro zumbi.

Se você teve a paciência de ler até aqui essas coisas todas, deve estar se perguntando qual o porquê de eu transformar esse período tão abençoado que é o da descoberta real da maternidade num filme de terror, né? Gosta de ser mãe não? Explico. Amo ser mãe. Tá arrependida? Explico. De jeito nenhum. Minha Juju é a melhor coisa que já fiz na vida!

Mas e o que tudo isso tem a ver com Vouchers e Vales? Explico. Meu objetivo em trazer tudo isso à tona e de forma tão calamitosa é para direcionar o post não às mamães, mas sim às amigas delas. Aquelas amigas-irmãs, de confiança, do peito mesmo, muito queridas e bem dispostas. De preferência aquelas que podem dormir fora de casa e que amem crianças de verdade. Que esse longo texto chegue até elas e as comovam, sensibilizarem, abalem. E agora, tendo uma ideia reavivada aqui do que a amada amiga barrigudaça enfrentará pela frente, elas se animem a oferecer um presente incrível que eu sugiro chamado Voucher VALE-UMA-NOITE-DE-SONO-MAMÃE!, a ser descontado quando a nova mamãe precisar de socorro. Olha aí:

Voucher_VALE-UMA-NOITE-DE-SONO-MAMÃE

Esse Vale pode valer a sanidade da presenteada. Ela ficará tão agradecida pelo que foi proporcionado a ela, que você a terá caninamente grata e fiel pelo resto de sua vida. E é só uma noitinha da sua existência. Muito pouco. Consideremos o trabalho em si como uma balada às avessas.

Comigo foi assim. Um mês e meio depois que minha Juju nasceu, aquela quinta e sexta de final de novembro de 2010 seriam os primeiros dias em que eu iria ficar em casa sozinha e passar duas noites inteiras somente eu e a minha filha pela primeira vez. O papai teria que viajar a trabalho, nos abandonando a própria sorte (drama!). Minha mãe já teria ido embora para cidade dela, tendo que realmente retomar o trabalho (e me largar ali à míngua, sola! mais drama!). E eu era puro terror ao pensar na chegada desses dois dias, ou pior, nas duas noites ao fim de cada um dos dois dias. Por que as noites são piores, não é? São caladas, são quietas, são escuras, são longas demais para uma mãe insone enfrentar sozinha… E nisso apareceu um Anjo do Céu, minha amiga Aglair, que se ofereceu para passar essas duas noites em casa comigo.

Nossa, que alívio, que alegria, que felicidade! E eu não esperava o que viria a acontecer. Depois de assistir minha insólita batalha pessoal na primeira noite, ela, já calejada mãe de três galalaus muito bem criados, na segunda noite sequestrou a babá eletrônica das minhas mãos, me expulsou da cama ao lado do berço da Júlia e me mandou partir pra minha própria cama (aquela abandonada há semanas). Disse que se ela acordasse com fome ia tomar mamadeira sim, com o meu leitinho que eu tinha previamente ordenhado, e que não seria isso que iria fazê-la largar o meu peito. E disse as palavras mágicas “Vai dormir menina, relaxa que cuido das coisas por aqui, pelamordedeus!”.

Nossa! Jesuis! Senhor! Santo! Não acredito. Sério? Não tem problema mesmo? Você me acorda se alguma coisa qualquer que seja acontecer? Você checa se ela está respirando umas três vezes pelo menos durante esse período? Você fica acordada velando ininterruptamente o sono dela? Ela não vai abandonar meu peito mesmo depois dessa mamada fortuita? E se ela não conseguir mamar na mamadeira? A mamadeira está esterilizada? E se ela chorar? E se ela fizer cocô? E se ela tiver cólica? Aushusushashaushauhshau!!!

E fuuuuuuuui!!! Dormir de verdade como não dormia há umas 48 noites. Tive novamente o direito a fazer o percurso inteirinho das quatro/cinco fases do sono, entrar em REM, sonhar e ter as sete horinhas sequentes de descanso mais felizes da minha vida.

Olha, ao acordar parecia que eu tinha descansado umas três eternidades. Eu experimentava um sentimento de gratidão tão grande, que buscava encontrar naquela hora mesmo urgentemente uma forma de agradecer à minha amiga a bênção que ela tinha me proporcionado. Não estou brincando, é sério! Se eu tivesse ouro em casa teria dado a ela em agradecimento. Tem minha gratidão eterna, a minha amiga querida…

Quaaaaaanto exagero, mulher, as coisas não são desse jeito não! Alguns dirão. Mas tudo fica potencializado umas mil vezes nesse período, né não? Acho que consegui descrever o que senti, de verdade. Cada um vive suas experiências de forma única, individual, intransferível. E eu estava cansada, exausta, exaurida. Nunca me senti tão frágil, impotente, meio burra e sem controle da minha vida quanto nesse período, tendo que lidar com um mundo inteiro de novos sentimentos, novas decisões, responsabilidades e obrigações. Para mim não estava sendo tranquilo. Um furacão passava por ali. E uma noite de sono aliviou bem o céu dessa tempestade toda… E claro, tudo passou, como todos sabem que passa.

Então coleguinhas, depois dessa historinha ilustrativa, considerem a sugestão de dar de presente no chá-de-bebê para sua amiga futura mamãe o tal VALE-UMA-NOITE-DE-SONO-MAMÃE! Ou dê em qualquer outra ocasião que apareça. Mande por e-mail, entregue por moto-táxi ou via postal se precisar. Mas se você for A amiga, dê! Talvez, na hora, ela não entenda muito bem o valor incalculável desse caríssimo presente que você está oferecendo, mas quando chegar a hora dela trocar o Voucher, ela vai entender, ah, se vai! E mesmo que você seja uma menina má, valerão muuuuuitos pontos no seu score para ir para o céu depois dessa boa ação praticada! Pense nisso. Suas amigas-futuras-mamães agradecerão eternamente, tenho certeza.

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