CoisasdeMãeEmConflito: Amor líquido aplicado à Paternidade e Maternidade segundo Bauman – socos no estômago da gente

Li nessa semana o livro Amor Líquido, do Zygmunt Bauman. O livro inteiro faz pensar muito. Cru, reto, incisivo, ele aborda o assunto Paternidade e Maternidade em apenas quatro breves pontuações entre as dezenas que apresenta. Mas é pracabá com o cabeção. Segue o texto do cara, que ilustra e complementa meus questionamentos atuais. Não sei se sou o monstro ou a vítima. Ainda pensando aqui… Mas eu prefiro o comichão e a dor do saber à tranquilidade e calmaria da ignorância.
Embora não devesse, copio aqui registro dessa parte tão forte do livro que me nocauteou direto, para eu não esquecer.
Sobre o nada admirável mundo novo esse, o nosso. 


ZYGMUNT BAUMAN
Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

Apresentação

A era da modernidade líquida em que vivemos — um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível — é fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor direcionado ao próximo, nosso parceiro ou a nós mesmos.

Zygmunt Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos ainda em atividade, Investiga aqui de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade — e freqüentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual —, não sabemos mais manter laços a longo prazo.

E não apenas relações amorosas e vínculos familiares são afetados: Bauman verifica ainda que nossa capacidade de tratar um estranho com humanidade é prejudicada. Como exemplo, ele examina a crise na atual política imigratória de diversos países da União Européia e a forma como a sociedade tende a creditar seus medos, sempre crescentes, a estrangeiros e refugiados.


Sobre o autor

ZYGMUNT BAUMAN é um dos sociólogos mais respeitados da atualidade. Com extensa produção intelectual, tem se destacado como um dos pensadores mais clarividentes do nosso tempo. Professor emérito de sociologia da universidade de Leeds e Varsóvia, Bauman tem outros 15 livros publicados por esta editora, dentre os quais destacam-se: Comunidade; Identidade; O mal-estar da pós-modernidade; Modernidade liquida; Vida líquida, Tempos líquidos; e Medo líquido.
Texto de quarta-capa

A modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos — um amor líquido. A insegurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos.

Zygmunt Bauman radiografa esse amor, tanto nos relacionamentos pessoais e familiares quanto no convívio social com estranhos. Com a percepção fina e apurada de sempre, busca esclarecer, registrar e apreender de que forma o homem sem vínculos — figura central dos tempos modernos — se conecta.

Sensível e brilhante como de hábito, Zygmunt Bauman faz deste Amor líquido mais que uma mera e triste constatação, um alerta revigorante.


(…)
Houve uma época (de lares/oficinas, de agricultura familiar) em que os filhos eram produtores.
Nessa época, a divisão do trabalho e a distribuição dos papéis familiares se superpunham. O filho deveria juntar-se ao oikos familiar, somar-se à força de trabalho da oficina ou da fazenda — e assim, naquela época, quando a riqueza derivava ou era extraída do trabalho, a chegada de um filho trazia consigo a expectativa de melhoria do bem-estar da família. Os filhos podiam ser tratados com dureza, mantidos sob rédea curta, mas esse era um tratamento comum a todos os outros trabalhadores. Não se esperava que o trabalho trouxesse alegria ou causasse prazer ao empregado — a idéia de “satisfação no trabalho” ainda estava para ser inventada. Os filhos eram, na visão de todos, bons investimentos, e como tal eram saudados. Quanto mais, melhor. Além disso, dizia a voz da razão, era uma aposta: a expectativa de vida era curta e todos se perguntavam se o recém-nascido viveria o suficiente para que suas contribuições à renda familiar pudessem se fazer sentir. Para os autores da Bíblia, a promessa de Deus a Abraão — “Vossa semente haverá de multiplicar-se como as estrelas no céu e como a areia sobre as praias do oceano” — era, inequivocamente, uma bênção, embora muitos de nossos contemporâneos percebam nela antes uma ameaça, uma maldição ou ambas. Houve uma época (das fortunas de família passadas de geração para geração, segundo a árvore genealógica, e da posição social hereditária) em que os filhos eram pontes entre a mortalidade e a imortalidade, entre uma vida individual abominavelmente curta e a infinita (esperava-se) duração da família. Morrer sem filhos significava nunca ter construído uma ponte como essa. A morte de um homem sem filhos (embora o mesmo não ocorresse, necessariamente com a de uma mulher sem filhos, a menos que se tratasse de uma rainha ou algo semelhante) significava a morte da família — negligenciar o mais importante dos deveres, descumprir a mais imperativa das tarefas. Com a nova fragilidade das estruturas familiares, com a expectativa de vida de muitas famílias sendo mais curta do que a de seus membros, com a participação em determinada linhagem familiar tornando-se rapidamente um dos elementos “indetermináveis” da líquida era moderna e com a adesão a uma das diversas redes de parentesco disponíveis transformando -se, para um crescente número de indivíduos, numa questão de escolha — e uma escolha, até segunda ordem, revogável —, um filho pode ser ainda “uma ponte” para algo mais duradouro. Mas a margem a que essa ponte conduz está coberta por uma neblina que ninguém espera que venha a se dissipar, e portanto é improvável que provoque muita emoção, menos ainda que alimente o desejo inspirados da ação. Se uma súbita rajada de vento viesse a afastar a neblina, ninguém sabe ao certo que tipo de margem iria se revelar, nem se da névoa emergeria uma terra suficientemente firme para sustentar um lar permanente. Pontes que levam a lugar nenhum, ou a nenhum lugar em particular: quem precisa delas? Para quê? Quem perderia seu tempo e seu bom dinheiro para planejá-las e construí-Ias?

Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional. Objetos de consumo servem a necessidades, desejos ou impulsos do consumidor. Assim também os filhos. Eles não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal que se espera que proporcionem — alegrias de uma espécie que nenhum objeto de consumo, por mais engenhoso e sofisticado que seja, pode proporcionar. Para a tristeza dos comerciantes, o mercado de bens de consumo não é capaz de fornecer substitutos à altura, embora essa tristeza de alguma forma seja compensada pelo espaço cada vez maior que o mundo do comércio vem ganhando na produção e manutenção desses bens.

Quando se trata de objetos de consumo, a satisfação esperada tende a ser medida pelo custo — busca-se o “valor em dinheiro”. Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria. Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente — o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante. Ademais, nem todos os custos são monetários, e os que não o são jamais poderão ser medidos e calculados. Eles desafiam as capacidades e as propensões dos agentes racionais que somos preparados para ser, e que lutamos para ser. “Formar uma família” é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável. Cancelar ou adiar outras sedutoras alegrias consumistas de uma atração ainda não experimentada, desconhecida e imprevisível — em si mesmo um sacrifício assustador que se choca fortemente com os hábitos do consumidor prudente — não é a única conseqüência provável. Ter filhos significa avaliar o bem-estar de outro ser, mais fraco e dependente, em relação ao nosso próprio conforto. A autonomia de nossas preferências tende a ser comprometida, e continuamente: ano após ano, dia após dia. A pessoa pode tornar-se — horror dos horrores — “dependente” Ter filhos pode significar a necessidade de diminuir as ambições pessoais, “sacrificar uma carreira”, como pessoas submetidas à avaliação de seu desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de lealdade dividida. Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade por um tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogável, sem uma cláusula adicional “até segunda ordem” — o tipo de obrigação que se choca com a essência da política de vida do líquido mundo moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestações de sua existência. Tomar consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática. A depressão e as crises conjugais pós-parto parecem enfermidades específicas de nossa “modernidade líquida”, da mesma forma que a anorexia, a bulimia e incontáveis variedades de alergia.

As alegrias da paternidade e da maternidade vêm, por assim dizer, num pacote que inclui as dores do auto-sacrifício e os temores de perigos inexplorados. Um cálculo sóbrio e fidedigno de perdas e ganhos está obstinada e irritantemente além do alcance e da compreensão dos pais em potencial. Qualquer aquisição feita por um consumidor envolve riscos — mas os vendedores de outros bens de consumo, em particular daqueles inapropriadamente chamados de bens “duráveis”, fazem de tudo para assegurar aos possíveis clientes que os riscos assumidos foram reduzidos ao mínimo. Oferecem amplas garantias (ainda que só alguns deles possam afirmar de boa-fé que a empresa sobreviverá ao prazo de duração da garantia, e praticamente nenhum possa assegurar que os atrativos da mercadoria adquirida, capazes de mantê-la distante da lata de lixo, não se desvanecerão bem antes disso), promessas de devolução do dinheiro e de assistência longa ou perpétua. Dignas ou não de crédito, nenhuma dessas garantias é oferecida no caso do parto. Não surpreende que os institutos de pesquisas médicas e as clínicas de atendimento pré-natal estejam nadando em dinheiro proveniente de empresas comerciais. Há uma demanda potencialmente infinita pela redução dos riscos endêmicos do parto, pelo menos ao nível declarado nos rótulos das mercadorias à venda nas prateleiras das lojas. Companhias que ofereçam a chance de “escolher um filho num catálogo de doadores atraentes” e clínicas de boa reputação que componham por encomenda o espectro genético de uma criança em gestação não precisam se preocupar com a falta de clientes ou a redução do volume de negócios lucrativos. Resumindo: a separação entre sexo e reprodução, amplamente observada, tem a anuência do poder. É o produto conjunto do líquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida, e a única disponível, de “procurar soluções biográficas para problemas socialmente produzidos” (Ulrich Beck). É a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questões da reprodução e do parto para longe do sexo e na direção de uma esfera totalmente diferente, operada por uma lógica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituição do homo sexualis é sobredeterminada.
(…)

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