CoisasdeMãeQueEvoluieMudaVisãodeMundo: Sobre princesas e o meu desencantamento com elas

Eu já fui encantada e também desejei ser princesa. Encantada pelas histórias e pelo rostinho quadrado e bochechudo da Branca de Neve. Pelos vestidos longos e simples, pelos bailes, sapatinhos, maçãs vermelhas e beijos salvadores de príncipes garbosos. Pelas longas luvas, tiara azul e vestido de baile Cinderela. Mas isso há uns 30 anos atrás. Histórias que eram trazidas misturadas a um monte de outras referências de uma infância diversa e saudável.

Hoje Branca de Neve perdeu seu rosto gorduchinho (deve ter feito uma cirurgia chamada bichectomina). Cinderela também mudou. Percebem que hoje todas as princesas tem o mesmo formato de rosto afunilado? Provavelmente para em escala industrial serem mais facilmente replicáveis. Elas brilham vaporosas em tule, glitter por todos os poros e viraram uma bela gangue de vender produtos licenciados em todas as variadas formas e meios. É um massacre que vemos hoje.

Com ano e meio, dois anos, as nossas meninas já entram em contato com conflitos, questões e beijos vividos por donzelas em perigo rumo à finais felizes para sempre após um salvamento feito por um belo e corajoso príncipe (que nunca fala). Precisam disso? Não me censurem, os contos de fada são sim importantes, não me entendam mal. São muito, muito importantes. Só que eu li na infância, Cinderela também na versão Perrault. Branca de Neve na versão Grimm, e a Sereiazinha na versão Andersen. Repletos de todos os arquétipos e cargas iconográficas de contos nascidos da cultura popular. Ilustrados por artistas que davam a elas diversas formas e rostos. Apresentados a mim e assimilados na hora certa de meu desenvolvimento. A Disney pasteurizou tudo, embalou em papel celofane e tornou tudo consumível sem limite de faixa etária, sem critério, sem moderação. Nossas meninas estão intoxicadas disso.

Sério, será que aos dois anos nossas meninas precisam ver tantas madrastas más, vilões torpes e beijos na boca selando a felicidade de um casal? Precisam entrar em contato com o amor romântico tão cedo? Precisam assimilar padrões estéticos IMPOSSÍVEIS e almejarem se igualar e eles com todas as forças do seu coração? A posição de “princesa” nesse padrão de perfeição, de afirmação e manutenção do papel secundário e passivo da mulher, que precisa ser salva e resgatada ajuda em quê na formação comportamental das nossas meninas? No que isso as ajudará no enfrentamento do mundo real?

Se por um lado ensinam-se a elas o papel de princesas perfeitas, cobra-se do menino a postura agressiva e desbravadora do herói. Precisamos deixá-las fortes e valentes também. Precisamos dar aos meninos espaço para que possam também expressarem sentimentos de ternura e fragilidade. Porque crianças são frágeis, sejam meninos ou meninas. Precisamos de EQUILÍBRIO. Pode e deve ter princesa delicada e super-herói poderoso, mas não SOMENTE isso. Precisamos tentar mantê-los todos, meninos e meninas numa infância saudável e cercada de exemplos diversos, múltiplos, positivos de verdade o quanto mais tempo for possível. Isso é muito, muito necessário para termos um mundo melhor. Damos assim tempo e repertório para que desenvolvam espírito crítico e se apossem e apropriem em suas vidas do que é realmente bom para eles e suas individualidades.

As nossas meninas passam a infância inteira já sonhando com um príncipe que só deveria ser desejado quando a puberdade chegar. O cenário é aterrador. Junto e em paralelo a esses fatores existe uma situação em curso latente de adultização e erotização precoce das nossas crianças gente! Aos dez, doze anos, enquanto nossas meninas estão ainda sonhando com vestidos, castelos e bailes, os meninos despertam para a sexualidade e não mais encontram a Playboy do pai escondida embaixo da cama. Não há mais mistério nenhum sobre nada. Todos já vêem tudo na TV. E encontram no Google, em poucos cliques, um universo terrível retratando o sexo das piores formas possíveis. E aprendem assim. Envenenam seus conceitos sobre uma das coisas mais naturais e belas que pode acontecer entre dois seres humanos com imagens e padrões terríveis e distorcidos. Entendem que aquela aberração na forma de se tratar uma mulher é o normal a se praticar.
Todas essas distorções podem arruinar de eterno uma questão tão positiva e vital nas suas vidas. Na vida de todos.

São esses meninos que estarão esperando por nossas princesas na saída da escola. Não acham que há algo muito errado? Não é preciso fazermos alguma coisa urgente?

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