CoisasdeMãeProfessora: indo estagiar na escola da filha

As necessidades de buscar caminhos para educação dos filhos, entendendo e refletindo profundo sobre essa educação.
Aqui em Campinas, fui apresentada por uma vizinha à Escola Curumim, em 2011. Eliete era mãe de um pré-adolescente que estudava na escola. Me chamava a atenção a postura do pequeno Maurício. Diferente dos pré-adolescentes que eu via subir e descer a rua juntos diariamente, munidos de celulares último tipo, Maurício ficava à parte desse movimento, e tinha sempre um livro nas mãos. E no olhar uma curiosidade, calma e doçura que me encantavam.

A primeira visita a Curumim foi quando decidi matricular Júlia com 1 ano e 7 meses na “escolinha”. Fui recebida muito atenciosamente pela coordenadora do Núcleo Infantil, a Mônica, que me apresentou os espaços, as ferramentas de trabalho e um resumo do que é ser uma escola que aplica a pedagogia Freinet como norteadora. Tudo me impressionou muito: os Livros da Vida, as produções das crianças cobrindo todas as paredes da escola, os espaços verdes e amplos, a mistura de faixas etárias no ensino infantil. Tudo visto reforçava o texto escrito do material explicativo entregue: uma pedagogia baseada na autonomia, expressão, cooperação e trabalho. Mas naquele primeiro momento, porém, minha insegurança de mãe de primeira viagem me impediu de colocá-la ali. Eu precisava que meu senso de proteção extrema fosse suprido. A amplitude daqueles espaços e o fato da escola ter também ensino fundamental me assustaram. Juju então foi para outra escola menor. Uma escola maravilhosa que cumpriu lindamente à risca todos os combinados. E Jujus foram muito, muito felizes lá.

Então Juju-filha cresce e “pede” mais algumas coisas: necessidade de desenvolver mais autonomia, se expressar em potencialidades mais particulares, cultivar espírito mais cooperativo e trabalhar com mais mão na massa suas “atividades criativas”, que eu tanto a incentivo desenvolver desde sempre. Juju-mãe também começou a se inteirar e fazer questionamentos profundos sobre os cenários atuais em educação no Brasil. Surge preocupação com a aceleração que exige das crianças hoje responsabilidades e contatos prematuros com questões e conhecimentos para os quais elas ainda não tem maturidade emocional, motora, sensorial e cognitiva plenas para vivenciarem. Senti necessidade de preservar um pouco mais o tempo de Jardim de Infância da minha filha. E para isso, Júlia iniciou nova jornada no ensino infantil da Escola Curumim em 2015, no meio do ano letivo.

Começamos a fazer parte de uma proposta concretizada em ações onde o espaço de aprendizagem respeita as individualidades e os tempos de aprendizagem dos alunos. Um espaço que proporciona cuidado, sem que isso sufoque suas iniciativas e curiosidades de exploração. Onde grandes árvores e vãos livres fazem parte de uma atmosfera de contato com a natureza e a liberdade. Lugar onde vejo crianças e pré-adolescentes fortes, empáticas em seus olhares e atitudes de uns para com os outros. Eles não se atropelam. Eles se percebem e se ajudam verdadeiramente. Tem senso de coletividade. E formar hoje um pré-adolescente que percebe algo além de si mesmo é um trabalho hercúleo e digno de aplausos.

Experienciando Juju inserida nisso plenamente, quis entender melhor como essa proposta se constrói para decidir alguns próximos passos, mais fundamentada. Soma-se ainda curiosidade de mãe, artista e educadora. Sobrou por aqui um tempo necessário para resolver uma questão em pausa. E eu “virei” estagiária na escola da minha filha.

De volta aos bancos da escola.
Através de um canal generoso aberto pela instituição, após fazer um curso introdutório, passei a frequentar desde maio, como estagiária, as aulas de Arte nas turmas de 6º a 9º anos, dadas pela Professora Audrey. Voltei para o banco da escola e aprendi como aluna nova, lições sobre um mundo desconhecido. Acompanhei as aulas, o dia a dia, a preparação para um evento emblemático da instituição e estudei in loco a pedagogia.

Compreendendo a teoria na prática, me encantei mais ainda com o que vi do lado de dentro. Resgatei minha própria trajetória escolar nas dinâmicas presenciadas em sala de aula. Me encantei também com as crianças!

Agora, com uma percepção madura e com olhar também de mãe que quer o melhor dos mundos para seu filho, me senti feliz tateando terrenos tão férteis. Entendo hoje melhor o universo “do aprender a aprender” proposto, através dessa visão inovadora, que na verdade existe fundamentada há mais de 40 anos. Nascida da experiência de um educador chamado Célestin Freinet, ao conhecer sua trajetória e como ele “criou” a pedagogia batizada com seu nome, fica muito claro que teoria nascida e embasada a partir da prática, tem uma força vital diferenciada.

Freinet, uma pedagogia que desperta seres melhores para o mundo.
Aprendi que a pedagogia Freinet promove um alinhamento entre os saberes científicos, a arte e a cultura. Percebi o quanto esse alinhamento vem de encontro ao que entendo como uma mistura de elementos ideal na formação de base que desejo para a minha criança. Entendi a importância de que ela receba sim, o conhecimento formal, imprescindivelmente. Mas que o contato com a arte e sua cultura, a formará para uma aplicação fértil e consciente de tudo de bom que esse tal de conhecimento – que é poder – proporciona. Compreendi que a sua essência da criança, fomentada pelo estímulo de sua capacidade criadora não se perderá. E que se espera que ela, sob esses estímulos, queira e ame ler mas não só as letras, mas o mundo inteiro. E que veja sentido e entenda seu papel a desempenhar nisso. Isso veio de encontro integral ao que desejo para minha filha nos seus primeiros caminhares pelo mundo do saber.

A criança é provocada para ser capaz de buscar o conhecimento por iniciativa própria. Sendo todo essa instigação do desejo de saber, conhecer e explorar feita tão fortemente, será facilitado o caminho percorrido entre o sonhar até o realizar. O grande movimento feito em torno da leitura, dos livros e produção de texto assegura que o língua na sua forma viva e o seu uso, sua produção, seja algo tão presente na vida da criança como o brincar e o jogar. A criança que aprende a gostar de aprender, a ler e a escrever prazerosamente, instrumentalizada estará para se tornar um adulto capacitado a fazer qualquer coisa que queira. A transitar ilimitado. Lindamente!

No campo emocional, as crianças desenvolvem uma profunda capacidade de demonstrar empatia pelo outro. As práticas que respeitam ritmos próprios e capacidades individuais diferentes fomentam isso. A postura inclusiva, de absorver crianças portadoras de deficiências e inseri-las realmente ao convívio diário escolar prepara o olhar e as atitudes dos mais privilegiados para o cuidado, o amparo, a aceitação, a cooperação e o entendimento das diferenças.

A proposta de que a criança seja protagonista do próprio aprendizado coloca o professor em um papel que exige dinamismo. É preciso ser um mediador firme, colaborativo e atento . O corpo docente trabalha com o novo diariamente e isso precisa agregar profissionais comprometidos com a não-comodidade e o não-conteudismo. Os movimentos são constantes e um dia nunca será igual ao outro. Como é a vida. É preciso preparo e disposição para lidar com isso. E eles tem.

Esse cenário se firma com a utilização, entre outras, de ferramentas como a criação de livros coletivos e individuais, como os Livros da Vida e as Publicações dos Projetos em Álbuns. As Produções Artísticas em suportes variados, de cunho coletivo e individual. O fomento da produção do Texto Livre. Uso do chamado Jornal de Parede, onde democraticamente se expõe e discute o que “Eu felicito”, “Eu Critico”, “Eu Proponho”, “Eu pergunto”. A Roda de Conversa. Os Ateliês e Projetos de Pesquisa orientada e os Ateliês de Trabalhos manuais e técnicos. As Aulas-passeio. Os Planos de Trabalho anuais estabelecidos conforme cada necessidade de ação. A definição clara e constante dos processos e metas desde o princípio de cada ação em sala de aula. O desenvolvimento das capacidades de Organização, Auto avaliação e Autocorreção orientados. Valorização do sentido do Trabalho. E muito respeito com as dificuldades e limitações do outro.

Essas ferramentas, de modo geral, se propõem a desenvolver as seguintes questões:

1 – Permitir e fomentar a auto expressão plena em todas as áreas possíveis: verbal, gestual, plástica, musical, corporal e emocional.

2 – Valorizar, facilitar e instrumentalizar o aluno para que ele saiba se comunicar com o mundo de forma fluída, autônoma e eficaz. Capacitar para transmitir, argumentar, se fazer exprimir e entender plenamente.

3 – Aprofundamento no que faz sentido para a criança e seu universo. Além dos conteúdos formais, a grade é flexível de forma a trazer ao dia a dia os assuntos na ordem que os interesses surgem, individual e coletivamente. As crianças agem de forma a criar, agir e conhecer, tateando experimentalmente o mundo.

4 – Favorecimento de uma atitude mais autônoma da criança. Postura que mostra compreensão do seu trânsito e interação positiva com o mundo. Colaboratividade, empatia, capacidade e necessidade de autogerenciamento e auto avaliação. Entendimento de regras e limites. Formação de seres respeitosos para com o outro e capazes de exigirem respeito do mundo.

5 – É ensinado que o trabalho tem um caráter extremamente valoroso. A criança entende que ele é parte essencial da vida, e que através dele se dá a conquista e a aquisição plena do conhecimento. Que ele deve ser realizado de forma positiva, motivante e construtiva. Complementar e nivelado em relação produção intelectual. Nunca como um fardo.

É impossível utilizar poucas linhas para descrever práticas e processos de uma pedagogia que se utiliza de tantos recursos para buscar trabalhar de forma integral o desenvolvimento dos alunos. Aqui foi o meu resumo pessoal breve de uma experiência curta, tanto como observadora, tanto como mãe de uma criança que se desenvolve sob essa batuta. É claro que há pontos fracos e muitas questões que poderiam ser diferentes, como em tudo que há. Mas hoje já aprendi que nunca haverá uma escola que nos atenda 100% em nossos desejos e expectativas. Entendo que é preciso observar as habilidades natas da criança e como ela se insere e se adapta ao sistema e ambiente proporcionados. Que poderá ocorrer a não adaptação, e que isso, se acontecer, deva ser visto e modificado da forma mais leve possível. Acredito que é preciso coerência da parte dos pais em se reconhecerem e aprovarem a proposta da escola escolhida, que seja alinhada com a conduta da família dentro de casa e na sua interação com o mundo. Vejo que minha participação nesse ambiente é mais exigida para complementariedade, e que preciso estar disposta e ter tempo para isso.

Nos dias de hoje, onde as crianças vivem em um mundo tão restritivo, em ambientes fechados sem contato com a natureza e muito cedo são imersas em realidades tão duras e desnecessariamente exigentes, pensar em adotar um espaço de aprendizado como o oferecido pela pedagogia Freinet é oferecer a chance deles se resgatarem em sua essência criativa e realizadora, que o ser humano tem naturalmente dentro de si e que precisa ser urgentemente mais cultivado. Mas sabemos que isso vai contra o status quo vigente. Vai contra a competitividade enfrentada e estimulada em todos os campos da vida. Vai contra o contra o consumismo desenfreado e valorização do ter em detrimento do ser. Vai contra um sistema educacional conteudista e que precisa instituir um funil injusto porque não tem como oferecer oportunidades a todos.

É preciso coragem para decidirmos oferecer mais asas e menos encarceramentos aos nossos filhos. Eu estou tentando.

Juliana Cassab/ Maio-Junho de 2016

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