CoisasUrgentíssimas: é preciso resgatar a própria infância, para sermos pais melhores

Como estamos assustadoramente dissociados da infância! Quem não tem uma formação voltada para a pedagogia, licenciatura, psicologia, saúde ou odontologia na área pediátrica, perde absolutamente o contato com as crianças ao entrarem na vida adulta. Cada um parte a cuidar de si, as famílias se distanciam, saímos para estudar fora, não acompanhamos os nascimentos na família. Aí nos formamos, trabalhamos como loucos, casamos (ou não), queremos comprar tudo, vamos viajar, estudamos mais um pouco antes (tem que fazer pós-graduação), e aí, lá pelos 33, quando o relógio bate, quem tem um parceiro legal que aceita tocar mais esse “projeto” junto, resolve então, finalmente, colocar mais uma alma feito gente nesse mundo superpopulacionado e esgotando-se em recursos.

Falo assim por minha experiência: para mim, filho era o fim e não o começo. Tudo ficaria mais difícil e era melhor adiar o quanto fosse possível essa resolução para não ter, minha vida de ser pensante útil e atuante no planeta, “estragada” pela chancela de MÃE que carregaria literalmente comigo sem trégua pelo resto da minha vida.

Eu queria ser a melhor profissional, independente e autossuficiente. Eu associava sem saber, tudo que fosse feminino a três terríveis outros F’s: fraco, frágil, fútil. E eu não queria por nada nesse mundo transitar perto desse terrível território, do qual eu tinha quase que raiva. Tinha que superar os 3 F’s. Orgulhava-me da força que achava que detinha. Era uma workholic e tinha um ótimo casamento: cada um vivia muito bem ali, focado em si. Não entendia que de certa forma, estávamos INDEPENDENTES demais, cada um correndo atrás de suas importantes prioridades individuais. Iguais, e não complementares. Eu talvez fosse a maior responsável por isso, fiel à cartilha aprendida por muitas de minha geração, que queria ser igual ao outro. Páreo. Não se construía ali se uma relação de suporte mútuo, respeitando-se e assumindo-se papéis COLABORATIVOS no plano de vida. E isso, quando chega o filho, vira uma questão gigante a se superar e modificar. Aqui aconteceu há seis anos: o relógio biológico gritou e a resolução se deu, por pressão do tempo. “Se não for agora, não vai dar mais tempo. Então vambora.” Que venha a prole! E o mundo virou do avesso. E se percebeu o quanto aquela vibe toda estava, para ser delicada na definição, EQUIVOCADA. A individualização absurda vivida fez peso maior nos imensos sustos vividos no dia-a-dia, em ter que cuidar de um outro ser, em comum ação e acordo. Nas escolhas que se seguem ao gerar, nascer, cuidar, vem o educar. E não nos munimos como deveríamos para essa nova etapa. Caímos em armadilhas terríveis como a do consumo desenfreado. Eu mesma caí, ingenuamente achando que estava fazendo o melhor. Era o que minha visão limitada alcançava. Não percebia que a chegada de um bebê é foco de um mercado gigante fortemente organizado para que nós pais adquiramos uma infinidade de coisas inúteis na verdade. Essas coisas nos dão a falsa segurança e impressão que estamos nos preparando da melhor forma. Mas o preparo tem que vir de dentro. Arrumar a casa de dentro da gente e não a de fora. E aí começam uma série de erros.

Acho que esses aspectos todos mencionados aí em cima tem importante papel na forma como minha geração anda criando seus filhos. Continuamos trazendo para essa nova estrutura (tão diferente em essência da anterior) nossas mesmas questões de antes: queremos que nossos filhos sejam o quanto antes também independentes e autossuficientes. Logo! Rápido! Rasteiro! Queremos que eles estejam munidos da maior quantidade de armas possível para enfrentar o mundo e se tornarem adultos “bem-sucedidos”: que sejam os primeiros a aprender a andar, que durmam sozinhos o quanto antes, que estejam alfabetizados aos 5, que sejam bilíngues aos 7, que entrem na faculdade antes dos 17. Gente, para quê isso? Que corrida maluca é essa? Que tem nesse pote ao fim desse arco-íris? Quais os reais ganhos? Você gostaria de ter participado dessa corrida? Você trocaria a SUA infância vivida por ISSO?

Sabia que a humanidade demorou centenas de anos para descobrir na criança um ser cheio de potencialidades em formação? A visão da infância como temos hoje é algo muito recente e moderno, e vale a pena se informar sobre isso. É assustador.

“O primeiro fato que pode chocar um leitor da atualidade é a constatação de que as crianças não tinham valor! Ariès (1981) destaca haver encontrado em documentos do século XVII relatos que confirmam uma ideia que durante muito tempo permaneceu com força: podia-se “produzir” várias crianças para conservar apenas algumas, em vista da mortalidade infantil, e da luta pela sobrevivência. Desta maneira, “as pessoas não se podiam apegar muito a algo que era considerado uma perda eventual” (BROERING apud AIRES, 1981, p. 57).”
BROERING, Adriana de Souza. A “descoberta” da infância ocidental na modernidade: quais crianças foram “colocadas nesse berço”? Revista Linhas. Florianópolis, v. 16, n. 30, p. 270 – 285, jan./abr. 2015.
Veja em http://www.revistas.udesc.br/index.php/linhas/article/view/1984723816302015270/pdf_60

Um outro aspecto a se pensar. Estamos vivendo em espaços cada vez mais apertados, fato. As crianças ficam confinadas à nossas casas com seus quintais minúsculos. Ou apartamentos. Longe das avós. Dos parques. Da rua. Do campo. Dos bichos. Nas nossas salas, as estantes de livros deram lugar a painéis onde destacamos nossas imensas TVs slim shape. Temos racks modernos para os apetrechos de entreter associados à adorada tela grande: BlueRayPlayers, decodificadores para acessar mais canais/mais flixes, videogames, smart coisas que tem vida própria. Sofás confortáveis e tapetes felpudos impecáveis rodeiam o “altar”, e à criança, cabe se adequar a esse ambiente, e ficar ali “bunitinha” que nem zumbi, sem sujar (nem a si, nem aos móveis), sem pular, sem tocar em nada porque estraga. Não há espaço para ela. Não há lugar para as crianças. É preciso transformar “home” em “theater”.

Já pensou o quanto isso é terrível? Já pensou que você tem um ser em formação morando e vivendo em sua casa, e que deveríamos ser mais generosos com eles e proporcionarmos espaços de trânsito e ocupação adequados às necessidades deles? Me entristece perceber como nossa dinâmica de vida trata a infância. Tinta é sujeira. Desenho é rabisco. Brinquedo no chão é bagunça. Deixá-los esparramar suas coisas pelo chão é falta de pulso. Bons livros infantis são muito caros e tomam muito espaço. Tem que adicionar 1 hora de tarefa de casa a mais a cada novo ano escolar. Assim, na quinta série, as cinco horas extraclasse dedicadas aos estudos diariamente garantirão a vaga naquela super empresa aos 23, não é?! Não cantem, não gritem, não dancem, se calem, se castrem, se possível. Cresçam o mais rápido possível. O mundo não é um lugar seguro para vocês.

Cadê o cultivo dos sentimentos de auto realização, de construção de mundo, que vem ao lidar com blocos de madeira e areia? Cadê o estímulo afetivo de criar prazer no ato de descobrir, (assimilado há de eterno para cada nova leitura que virá) de curiosamente se virar uma nova página de livro infantil no colo da mãe, para revelar o desenho que conta no que vai dar aquela aventura?

Para construir sua visão de mundo com propriedade a criança tem que se apropriar de sua história com força, com alegria. É preciso compreender as estruturas reais das coisas do mundo. Ver, tatear e experienciar a vida. Aprender por querer e desejar saber, e estar estimulada a isso. Querer compreender os símbolos que lhes abrem as portas da leitura por necessidade própria de ampliar os olhares e saberes. Ser capaz de comunicar seus sentimentos. Ser feliz! E para isso ela precisa do nosso apoio, de fomento. Que conduzamos isso. Somos nós os maiores facilitadores e espelho para essa ação.

Estamos confinando a infância à escuridão. Estamos mantendo as janelas reais fechadas. Está tudo muito escuro e o se o sol não entra, a vida não floresce. E isso é muito, muito sério gente.

 


Como muitos sabem, Júlia veio que nem furacão despertar mil novos olhares e necessidades de entendimento meus. Compreender os processos de aprendizado e desenvolvimento infantil foi uma dessas necessidades, para que eu possa lidar da forma mais consciente possível com os caminhos que tenho que escolher para ela, enquanto essas escolhas me cabem. Ando ampliando meus horizontes adoidado nesse campo ultimamente.

Buscando entender a fundo o que a escola escolhida pra acolher a primeira infância da Juju pratica, aproveitei uma oportunidade e um canal fantástico aberto por eles: estou frequentando como estagiária das aulas de arte da escola, acompanhando o dia a dia da instituição e estudando sua pedagogia (Freinet). Compreendendo a teoria na prática, me encanto com o que vejo. E resgato minha própria infância em cada ação que presencio na sala de aula. 

Esse texto me veio ontem depois de mais um dia acompanhado as aulas da Audrey na escola. Fazia tempo que eu não escrevia, e acabou saindo um texto recortado e confuso, talvez. Reflexo do turbilhão que se passa aqui dentro. Mas se vc o leu até aqui, e se o fez pensar de alguma forma sobre qualquer um dos pontos apresentados, fico feliz!

Obrigada pela visita, espero hora dessas encontrar pessoalmente com você para continuar esse papo!

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