CoisasSobreAmamentação: Mas ainda mama? Desamamenta, desmamamãe!

Começo de 2013, Júlia aos dois anos e quatro meses, ainda mamava.

E quanta coisa eu ouvi!!! Fora da blogosfera materna e dos grupos de humanização, encontrava na maioria das vezes grandes dificuldades, questionamentos e repreensões sobre minha postura. Mil teorias para classificar de forma tão negativa algo tão simples e natural. Escutei muitas palavras de censura, recebi olhares de estranhamento e até repulsa. Avisos de que estava cultivando um comportamento desnecessário, prejudicial e nocivo de dependência para ambas. Que eu estaria gerando traumas. Com minha atitude, eu a estaria impedindo de desenvolver sua autonomia, de crescer. Que manter esse vínculo na verdade era reflexo de minha dependência em relação a minha filha. De que eu não estava oferecendo absolutamente nada nutritivo. Que aquele líquido não passava de água inócua e rala. Afinal, para quê leite, já que ela já tinha dentes… Do meu círculo, o fato era que eu ouvia as opiniões contrárias à amamentação prolongada vindas das pessoas que faziam parte das camadas mais “aculturadas”, “escolarizadas” e “privilegiadas financeiramente”. E o pior, pessoas a quem eu amava, admirava e respeitava muito. Isso para mim representava um grande conflito. Escutei muitas receitas preocupadas com minha “teimosia” em não buscar forçar, precipitar o fim dessa tão tardia atitude mantida: a de continuar amamentando minha filha ainda depois dos dois anos. Sugeriram que eu inventasse machucados, que passasse coisas que causassem repulsa ao paladar e visão da minha pequena, que eu lhe colocasse para dormir na avó, que eu desse o jeito que fosse necessário para que ela não mais pedisse meu peito. Como fazer tal conexão em seu coração e lembrança sobre a finalização de um momento tão lindo vivido por nós nesse vínculo mãe-filha de sua primeira infância? Como eu iria imprimir no fim desse processo um fato tão fortemente negativo? Agregar sentimentos e lembranças de repulsa e dor (de forma simulada?) a algo tão natural e tranquilo também não seria algo traumatizante ao extremo?

Mas por outro lado, junto às pessoas mais simples deste meu mesmo meio, esse fato sempre foi recebido com naturalidade, sem dramas ou questionamentos. Sempre tive muito respeito e olhos voltados ao passado, à experiência dos mais velhos, e escutei muitas vezes repetidas de alguns deles vivências tranquilas de amamentação mantida por longos períodos, mesmo de gravidez emendada uma na outra, enquanto o filhote anterior mantinha-se firme no seu mamá.
Júlia é uma menina forte (sempre nos topos das curvas de crescimento e peso), super saudável, nunca tinha tomado um antibiótico até seu 1 ano e 7 meses, quando entrou na escolinha. Durante esse ciclo inicial, várias ites, ões e oses intra-nova-vida-escolar vieram sucessivamente por quase seis meses, o que sabemos toda criança enfrentar. E quando ela ficava três dias sem comer absolutamente nada, recusando até agua, com a barriguinha toda revirada com gastroenterite, vomitando tudo que eu tentava lhe dar, era somente meu leite que ela aceitava, e que a mantinha hidratada e nutrida, apesar de doente. Essas e outras me davam força para sustentar minha posição.

Entendo que fatores externos, questões muito pessoais e o lindo fato de cada mãe (graças a Deus) ter e ser em si um rico universo único e intransferível faz cada uma pensar, tomar e mesmo defender posições diferentes da minha. Meus sempre imensos respeitos a cada uma delas. Mas puxa, para quem me apontava o dedo em riste, nada que eu dissesse parecia ser razoável. Na maioria das vezes eu me calava. Mas seguia firme. Só não tinha, na época, muita força para argumentar. Nunca fui muito boa nisso, embora a maternidade tenha me cobrado mais e mais a cada dia a necessidade de assumir posicionamentos.

Minha grande preocupação na verdade era a de que esse momento do parar, quando viesse a acontecer, fosse tranquilo e decidido pela Júlia. Eu não ia conseguiria desmamar à força da Juju. Aqui, papéis se invertiam e alternavam sim, e eu também me alimentava desse momento, mantido enquanto fosse sua vontade. E acho que o mais importante: eu nunca acreditei que isso poderia ser prejudicial a ela.

Bão, quando ela tinha dois anos, após passar por uma pequena cirurgia, confesso que tentei provocar sob aquelas circunstâncias, a ruptura forçada, e não consegui. Cheguei a escrever uma carta para ela, que não consegui terminar. Não achei certo, justo, materno, deixá-la chorando porque “já passou da hora de acabar com isso e essa era uma boa hora: pontos na barriga, anti-inflamatório, repouso…”. Entrei em parafuso, quando me vi negando e ela pedindo o peito, em prantos.

 


 

O processo de desmame
O desmame foi gradual, e de certa forma, embora tenha acontecido conforme nosso tempo e natureza, eu interferi, e agi sim. O meu tempo e percepção diziam que passados seus 2 anos, não era necessário mamar mais durante o dia. Haviam muitas coisas pra fazer, o dia já apresentava atividades e outros focos de atenção para a Júlia, e quando ela me pedia o peito, eu a distraía e apresentava outra atividade. Esse momento é aquele onde já estamos no shopping, no mercado, na casa do outro e sim, o fato de ela se pendurar em mim insistentemente, pedindo mamá me incomodava, sim, mas mais pelas reações externas que pelo fato/ato em si.

Isso relegou o “mamá” à hora de dormir, gradativamente. Que continuou até o desmame final, aos 3 anos e 1 mês.

 

O “primeiro” desmame final, que não se fez final
Agosto de 2013. O texto abaixo foi escrito no fim do quarto dia sem mamá:

E depois de dois anos e nove meses aconteceu repetidamente por quatro dias! Juju pediu para apagar a luz, em vez de falar “quero mamá”. Deitou-se direto no seu travesseirão na cabeceira da cama e disse – “fecha o olho” – é hora de dormir. Vamo naná!

No primeiro dia me assaltou a constatação: “Ela não pediu o peito”. Nada vou falar, nada vou mencionar, e como em todos os dias, demos continuidade ao ritual: deitei-me ao seu lado, aconchego para lá, aconchego para cá, o pedido para colocar ao seu lado todos os seus companheiros de soninho: seu cavalo, seu carro, seu outro carro e os últimos da sua moda invernal de 2013, sua “tóca” e seu “cobertorzinho pequeno”. Espero Juju anjo adormecer para me retirar de sua caminha e rumar para minha camona. E o ritual diário excluiu a mamada noturna.

 “E é isso amor!!! Acho que acabou. Fechou nosso ciclo. Você, independente, agora adormece sem precisar se aninhar mamando no meu peito antes.

Menininha crescida, amor imenso, meu coração sente que mais um cordão essencial cumpriu seu papel, se fez desnecessário e foi cortado. A última ponte física, direta e tangível existente entre nós, remanescente do período divino de sua formação inicial em meu ventre, quando outros líquidos meu corpo produzia no intuito de te nutrir e de literalmente te criar. Parte divinamente constituída e permitida ser fluida de mim, para te formar novo ser saudável, amado e cheio de vida.

Na minha experiência pessoal, creio que a amamentação cessou quando esse ser que se formou parte de mim passa a entender e expressar que sabe e entende que recebe sim o meu amor materno de forma não tangível. Aos quase três anos, ela agora me olha e vê que eu a nutro, a cuido e a alimento de todas as outras formas possíveis.

Fica agora a troca de um sentimento chamado amor, não mensurável em kilos ou mililitros. Amor sentido em forma de energia, de luz pulsante que sinto ser como um sol. Amor que também cumprirá o papel de alimentar e nutrir, até o fim dos meus dias.”

ju

Com ele e com esse desenho, me despedi naquele dia dessa fase vivida com minha filha, que imaginei ter cessado. Terminei de escrevê-lo chorando, emocionada. E aos que nunca passaram pela experiência da amamentação, por quais motivos tenham sido, pode parecer exagerado e dramático, ao extremo. Mas com certeza, essa é uma daquelas coisas que a gente só entende vivendo, como a própria maternidade.

Mas…

 

O desmame final

Na sequencia Júlia adoeceu. Dodói de inverno e na quinta noite pediu peito antes de dormir. Cedi. E retomamos o que parecia ter tranquilamente acabado.

Passou agosto, setembro, outubro… Então, houve um momento de dor, de confronto. Nas idas para casa da avó, em outra cidade, a Júlia dorme comigo na mesma cama sempre que vamos sem o pai. Há alguns dias estava doente novamente, momento que meu peito lhe oferecia mais acalento e quando mamar era algo mais requisitado que o normal. Nessa primeira noite estando 100% do tempo ao meu lado, ela acordou diversas vezes para mamar ao longo da noite. E crescida com estava, e forte como era, acabou por me ferir de verdade, e nas noites seguintes precisei mostrar e explicar que a forma como ela estava mamando estava realmente me machucando. Parecia que ela tinha perdido a medida da pegada, situação que se prolongou por mais um tempo.
As coisas se acalmaram, voltamos para casa, seguimos poucos dias ainda com a amamentação. E então em novembro, finalmente, novas noites seguidas sem pedir mamá aconteceram. E pronto, acabou, aos três anos e um mês de sua vida! Sem choro para nenhuma das duas, sem retorno, em definitivo.

E sentimentos novos emergiram:
De missão muito bem cumprida!
De que minha pequena cresceu!
E siiiiim! Senti uma imensa alegria – por novamente ter meu corpo totalmente de volta para mim e para outras funções não restritas à maternidade! E tenho certeza que houve um “que maravilha!”, por papai, que pensou, mas não disse, rsrsrs! (Um papai aliás, que foi a outra grande parte atuante dessa história, e que nunca, em nenhum momento me sugeriu que fizesse um caminho diferente do que estava trilhando, mas isso é assunto para outro post).
E pronto, acabou a história.

 

 


Esse texto estava na gaveta há um tempão, e eu adiava sua publicação. Hoje participei de uma vivência muito especial, que falou a mim fortemente sobre essas questões e tomei coragem. Em minha cabeça, adiava porque ficava buscando fontes para adicionar aqui, ao fim do meu relato, de pesquisas cientificas em bases imparciais que validassem absolutamente minha posição, para que eu as apresentasse aos céticos. Encontrei muita informação séria e relevante. Mas o quadro atual, aos olhos de quem precisaria de MAIS, sobre todos os aspectos, encontra retorno no texto abaixo:

“Historically, research on breastfeeding has defined breastfeeding arbitrarily. Definitions of breastfeeding have varied between studies and have often been based on convenience, depending on the data the researchers have available. Breastfeeding has often been treated as a categorical rather than a continuous variable, and the effects of the duration, intensity, and exclusivity of breastfeeding on study outcomes have been neglected. The lack of precision in defining breastfeeding has led to conflicting results in studies comparing breastfed and artificiallly fed infants.1”
Owen, C. G., R. M. Martin, P. H. Whincup et al. Effect of infant feeding on the risk of obesity across the life course: A quantitative review of published evidence. Pediatrics 2005; 115(5):1367-77.

Em tradução livre.
Historicamente, pesquisas sobre aleitamento materno o definem de forma arbitraria. Essas definições são variaveis entre os estudos e são comumente baseadas em conveniência, dependendo dos dados disponíveis aos pesquisadores. O aleitamento materno tem sido muitas vezes tratado como uma categoria ao invés de uma variável contínua, e os efeitos da duração, intensidade e exclusividade do aleitamento materno sobre os resultados do estudo têm sido negligenciados. A falta de precisão na definição de aleitamento materno tem levado a resultados conflitantes em estudos comparando amamentados e alimentados artificialmente.
Owen, C. G., R. M. Martin, P. H. Whincup et al. Effect of infant feeding on the risk of obesity across the life course: A quantitative review of published evidence. Pediatrics 2005; 115(5):1367-77.

Tudo em torno da maternidade com certeza envolve um grande quê de divino. Acredito que em conjunto de crenças solidificadas, novos ares podem nunca mesmo soprar. É quase como tocar em religião. Hoje eu não tenho dúvidas que para mim, que não haverá forma mais próxima de eu experimentar um naco do que é a força divina, do que vivenciar e exercer o amor maternal. Então, enquanto não aparece um estudo chancelado por uma instituição de peso incontestável, que fique valendo aqui uma questão chamada intuição e fé. E isso não é possível transferir ou ensinar ao outro, infelizmente.

Anúncios

  1. Lindo, lindo!!!
    Minha pequena tem 15 meses e o tal do desmame começou a me “assombrar” (nem sei muito bem pq), de forma que esse seu texto lindo me arrancou umas lágrimas…rs
    Obrigada pela reflexão e emoção!
    Beijos

    • Gabi, muito obrigada pela visita e paciência em ler esse loooongo texto :)!
      Qdo penso em compartilhar esse tipo de experiência, a expectativa é a de que eu possa encontrar empatia dos que também enfrentam ou enfrentaram a mesma situação, que possa de alguma forma somar, e fazer refletir mesmo. Bom demais receber retornos assim confirmando que consegui! Bjuju!!!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s