ContoDePáscoa – Sobre partidas, retornos e assombros com os entendimentos infantis sobre vida e morte

A compreensão de mundo das crianças assusta e encanta a gente. Achamos que eles não tem capacidade de assimilar certas questões, sofremos no processo de protegê-los (eu sofro) e qdo tentamos levar de uma forma mais leve e confiamos a eles essas tais questões, nos surpreendemos.

O conto de Páscoa começa com um história sobre entendimento a respeito de partidas, e calma que lá pra baixo a Páscoa entra :).
O plano aqui sempre foi termos um segundo filho. Até que ano passado, um aborto espontâneo deu uma pausa braba no sonho e nos colocou em dúvida sobre como seguir. Um assunto difícil mesmo entre adultos, que não abrimos pra pequena Júlia por não acharmos necessário e por senso de preservação. O assunto virou um grande tabu dentro de casa. Como é também fora né, infelizmente? As conversas em baixo tom com pessoas próximas nos mostra que é uma experiência pela qual um número grande de nós passa, mas fica no limbo, talvez doendo muito mais do que se fosse mais compartilhado e tratado de forma mais natural. E a tentativa de uma nova gravidez virou algo difícil de solucionar. Muitos prós e contras para levar em conta. Será um sonho pra deixar adormecer?

Só que tudo segue, forte, pulsando. E felizmente, a vida nos cerca de vida. Por aqui, nesse ano, temos em torno de nós, bem pertinho, pelo menos 4 queridas prestes a trazer anjos nenéns novinhos em folha para o nosso planeta. Uma avalanche de bebês quase para cair no meu telhado! Vem um anjo bebê Matheo da casa da frente, anjo Lara da casa do lado, anjo Gabriel da casa pregada na do lado, e mais um anjo menina, de uma querida que se mudou daqui há a alguns meses, mas que continua presente no nosso dia-a-dia. Ah!!! E ainda a mamãe da melhor amiguinha da escola da Júlia, já com pacotinho anjo caro e abençoado entregue ano passado mesmo, o lindo Huguinho, “o bebê da Sofia”, como Júlia costuma se referir. Chega a ser quase um complô do universo comigo, rsrsr, e com isso, ficou muito forte a cobrança da Júlia em relação à “cadê um nenê irmãozinho na sua barriga também, mamãe?”. Eu andei escutando recentemente isso assim, umas três vezes por semana. Pra mim cada pedido era motivo de dor, confesso. Não sabia como lidar, como responder. Era evasiva, rodeava e enrolava pobre Jujú.

Um encontro intenso e esclarecedor com um grupo de mulheres me despertou pro fato de que essa criança, embora não tenha ficado, passou por aqui e fez sua marca na nossa história familiar. Cumpriu um papel que acredito hoje já ser possível eu entender qual foi – um lindo e importante papel, apesar da breve permanência 🙂 – apesar da dor da perda, que foi muito grande. E que não deveria ser um segredo intocável de família. Quando isso seria dito à ela? No meu leito de morte? (Drama!, rsrsr).

O encontro foi na sexta. E no domingo, um outro encontro profundo com Juju, me acalma e alegra profundamente meu caminho. Mais uma vez ela me olha com seus olhos grandes e pidões e me diz:
– Mamãe, faz um irmãozinho pra mim…
Respiro fundo, me sento ao lado dela no chão e finalmente lhe explico:
– Filha, papai e mamãe também queriam muuuuuuito trazer um irmãozinho pra nossa família. Ano passado, ele veio, Juju, mas ficou só um pouquinho dentro da barriga da mamãe e precisou ir embora, foi pro céu. Virou estrelinha lá junto do Papai do Céu, que tá cuidando dele agora.
Ela me observou séria e atenta. Sem dramas, sem dores, sem perguntar mais nada. Se calou e não falou mais no assunto por quase um mês. Parou de pedir irmãozinho. E me tirou uma tonelada de peso das costas e do coração por um período.

JujuPracadoCoco

Um mês depois, fomos brincar na Praça do Côco num sábado. Lá Juju se entrosa com uma nova amiguinha, e elas brincam. Juntas se achegam perto de mim, onde perto dos meus pés, na terra, há umas pás e uns carrinhos deixados por alguma outra criança. A nova amiguinha pergunta pra Júlia se o carrinho é do seu irmão.
Júlia calmamente repete por duas vezes, balançando a cabeça e gesticulando lindamente com as mãos:
– Eu não tenho irmão. Ele foi pro céu e virou estrelinha. Está lá com o papai do céu.
Nesse dia, chorei muito, virada do avesso. E a partir dai, ela passou a repetir tranquilamente a explicação em diferentes ocasiões, qdo surgia.

Bom, e o que isso tem haver com a Páscoa??? Muitas coisas! Vixi, inda tem mais pra ler, rsrs.
Nessa semana de preparo para celebração Pascoal, grandes expectativas são cultivadas na escola e entre todos os amiguinhos. A professora traz o tema e a história da morte e ressurreição de Jesus para as crianças. Júlia se lembra bem dele, pelas histórias de Natal contadas poucos meses antes.
Ela chega da escola na terça me contando que Jesus morreu, mas voltou, falando com entusiasmo. Digo que sim, que ele foi pra junto do Papai do Céu, mas Ele acabou voltando. Ela sabe que quem vai pro céu, não volta mais. Já esclareci e pontuei isso para ela.
Então na quarta, dia seguinte, Dona Júlia olha pra mim e diz, me desconcertando:
– Mamãe, meu irmãozinho foi pro céu, mas vai voltar! Ele vai voltar!
Pequena Juju pertence a um geração que está anos-luz a frente da gente numa escala evolutiva, acredito nisso. Sua leitura de mundo, as relações que conecta me pasma às vezes. Pra essa questão, novamente engoli a seco, e fiquei mais uma vez sem resposta.

A história voltou a pouco, hoje, antes de dormir. E eu quis registrar, para não perder tanta lindeza.
Falamos mais uma vez sobre nenéns e Jesus. Ansiosa com a visita do Coelhinho que lhe trará amanhã um ovo de Dinossauro, em vez do de chocolate (isso é uma ooooutra história), está agitada e tagarela. E mais uma vez o assunto volta e ela se refere ao “irmão”. E mais sobre o que ela ouviu e assimilou sobre a história da Páscoa, contada na escola. Júlia, aos 4 aos e meio, me reconta assim:
– A tia contou que “Jesuis” morreu e o “coipo” ficou na caverna. Aí as mulheres viram que ele tinha “acoidado” e saíram gritando assustadas que ele sumiu. Então viram que moveu a pedra muuuuito pesada. E que ele voltou.
Eu explico que ele voltou sim, mas foi o único que voltou, (por que como ela já sabe, as outras pessoas não voltam) e que então, depois Jesus acabou voltando de novo pra junto do Papai do Céu no dia de Páscoa, e que está lá olhando e ajudando ele a cuidar de nós.
Ela complementa:
– É, ele “acoidou” e fez antes de ir umas coisas boas né. Depooois voltou pra junto do Papai do Céu, que é o Papai dele!
Dei um grande sorriso interno, reforcei que só foi mesmo Jesus que voltou, e que aquele irmãozinho que foi não iria voltar. O que é verdade, afinal, aquele do ano passado não vai voltar mais. Fecha-se uma questão, sem meias-verdades. Ela escutou, e disse, ahhhhhhhhhhhhhhhh… e mais nada, então dormiu.

E por hoje acabou a história. Estou de novo feliz e mais uma vez aliviada :). Se conseguiu chegar até aqui, um grande beijo, obrigada.
E um lindo dia de Páscoa para todos!

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