CoisasdeMãe – Mais um livro, sobre desenhos de criança: da mãe, da filha e do mundo inteiro

Toda mãe tem um ser humano completo em potencialidades em casa. Crianças que ao crescerem podem se tornar o que sonharem ser na vida. Como as direcionamos para isso é importantíssimo. Vale a pena entender nosso papel, estimular, permitir, ensinar, não nos omitir. Acredito nisso! Com todas as minhas forças. Se você se lembra de alguma vez ter desenhado na vida e ter desistido, entenda porque afirmo que você não deveria ter abandonado essa linguagem tão linda. Não deixe seu filho deixar de lado essa capacidade. A desenhadora explica porquê.

Fui aquela criança que sempre gostou de desenhar e teve o privilégio de na vida adulta poder continuar fazendo uso dessa linguagem tão rica em meu dia-a-dia como profissional. Cursei graduação em Educação Artística – Licenciatura (sou professora de artes),  e em 2001 concluí uma pós-graduação onde o tema escolhido para ser desenvolvido e estudado por mim foi o Desenho Infantil. Realizei um estudo abrangente buscando uma conceituação histórica, nascido como necessidade de compreensão de um processo de desenvolvimento próprio, visto que o desenho sempre foi utilizado como uma forma pessoal de expressão significativa desde a infância até hoje. Desenhei a vida toda. Desse processo nasceram dois trabalhos: uma Monografia e um Livro de Artista.

Um complementa o outro e os trago aqui para:

– falar às pessoas (principalmente às mães) sobre a importância do Desenho, numa visão pessoal que vê o desenho não como um dom, mas um domínio que pode ser adquirido através de estudo, treino e orientação, como a Matemática. E estimular através dessa leitura um olhar e atitude diferenciada dessa mãe para o desenho do filho
– conceituar e embasar minha produção atual
– mostrar melhor de onde vem tanta inspiração vinda para o universo feminino trazido pelas CoisasSódeMãe.

Os desenhos de criança da mãe

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Meu Livro de Artista foi criado em 2001, quando nem imaginava ser uma “desenhadora de livros” e minha realidade atual com as propostas das CoisasSódeMãe não era nem um rascunho fraco em minha mente. Ele enfoca meu desenvolvimento gráfico e passos bem iniciais, os primeiros mesmo, em fotografia e ilustração digital (veja um atentado à arte minha primeira experiência com Photoshop, lá na página 28). Um período que vai desde criança, desenhos que tenho guardados a partir dos 11 anos – tudo feito anteriormente se perdeu – até meus 23 anos.

Desde sua última atualização se passaram mais de 10 anos, e tem muita coisa nova para ser colocada aí nesse período, muitas histórias, novos desenhos e representações. Um projeto dinâmico, que será revisitado muitas vezes por minha capacidade criadora ao longo de minha vida. Preciso inclusive hora dessas parar tudo e atualizá-lo.

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O tema é “Minhas mulheres” porque mulheres são uma presença constante na minha arte e referenciais fortemente presentes em minha vida. Através da maneira como as vejo e represento eu me revelo, e é bem isso que vejo acontecer em minha produção. A busca da representação delas aconteceu desde bem pequena. Necessidade de representação que mais tarde se concretizou em grafite, lápis de cor, pastel, óleo, em vetor e pixel no computador e também em fotografia. O livro expõe a evolução deste trabalho paralelamente à descrição e histórias dessas mulheres. O livro me mostrou as etapas de desenvolvimento gráfico que atravessei e me fez entender por que em certos momentos as coisas saíram como estão. Um projeto que realizado que me fez pensar muito e contribuiu para meu autoconhecimento, como ser humano e como desenhista, de uma forma que nunca imaginei possível acontecer tão cedo em minha vida.

A versão do livro aqui mostrada é parcial, porque não dá pra dissociar trabalho de criatura, e através dele já me exponho mais que o suficiente. Trago apenas os desenhos e não o conteúdo escrito. As manchas de texto são apenas ilustrativas para que fique mantido layout de diagramação do trabalho. Saem os textos, que suprimidos, deixam os desenhos, que adquirirem linguagem própria, em ordem crescente.

Conheça meu livro de artista aqui ou aqui.

Os desenhos de criança do mundo

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A monografia “O desenvolvimento histórico do estudo do desenho da criança” fala do processo ocidental de entendimento da importância da linguagem do desenho infantil. Hoje, quando eu a leio, me doem os olhos ver como a escrevi: poderia ter sido bem mais fluída e livre de erros, que ocorreram aos montes :). Mas tirando a forma, e preservando o conteúdo, ele me é muito válido e traz em sua conclusão o que tenho até hoje como conceito formado sobre o assunto, e que aplico na apresentação e forma como lido com o Desenho da Minha Criança Júlia. E que gostaria de compartilhar com todos e fazer (re) pensar suas posturas quem se interessar pelo assunto.

Não se assustem com os teóricos citados, siga adiante pois é possível entender bem minhas posições, assumidas com propriedade de criança que sempre gostou de desenhar e teve o privilégio de na vida adulta poder continuar fazendo uso dessa linguagem tão rica em meu dia-a-dia como profissional, como disse no inicio desse texto. Segue minha conclusão final.

O DESENHO DA CRIANÇA

“O universo estudado através desta monografia acabou se mostrando muito maior do que a princípio se imaginava. (…) Os estudos e visões sobre o tema revelaram-se extremamente ligados a todo o contexto histórico da época em que eles estavam sendo desenvolvidos. Estudá-los e entendê-los torna-se um processo dependente do conhecimento e compreensão do período histórico em que eles se dão. (…) Partindo dessa conclusão verificou-se que o “descobrimento” do traço infantil e suas significações se deram em um período eufórico da história da sociedade ocidental, quando o homem começava a avançar rumo ao aprofundamento de seus conhecimentos científicos de maneira nunca feita antes. 

Assim como o descobrimento da própria criança enquanto indivíduo pensante, a construção de um sistema educacional que atendesse essa criança misturou-se, no campo das artes, com a libertação artística frente às formalizações impostas por séculos de história da arte. Isso influenciou decisivamente a maneira com que os estudiosos passaram a tratar a produção gráfica infantil.

(…)

O estudo do tema O desenho infantil se fez paralelamente ao desenvolvimento dos estudos relativos à educação, cognição e desenvolvimentos psicológico, mental e físico da criança. Eles nasceram e caminham juntos, estando aí a justificativa da abordagem dos trabalhos dos estudiosos da educação como Vygotsky, Freinet, Piaget, Klein e Gardner. E também dos estudiosos ligados às questões psicológicas como Goodenough, Bender, Wallon, Machover, Koppitz, Luria, Di Leo e Harris.

(…)

O tom libertário que foi instituído no primeiro período que segue às primeiras abordagens formou o quadro que vemos hoje. Read e Lowenfeld e o próprio período histórico onde a arte conhecia novas formas de expressão como o impressionismo, expressionismo, cubismo e abstracionismo influenciaram todo o comportamento ocidental acerca da criança e seu desenho. Arte nesta época era sinônimo de liberdade e confundiram a expressão gráfica da criança, elemento “recém-descoberto”, com arte, gerando todo o quadro verificado.

(…)

No que se refere ao posicionamento do adulto junto ao desenvolvimento gráfico da criança, conclui-se que a melhor maneira de se agir é dar a ela liberdade de expressão, mas com estímulo constante apoiado em direcionamento e conhecimento formal, como sugerido por Cox. Esse direcionamento deve ser feito por professores e pais conscientes do processo de desenvolvimento do desenho de suas crianças. Eles devem ser capazes de ajudá-las, partindo de seu próprio conhecimento, sabendo lidar com esses novos aspectos, o que implicaria em ter que se re-ensinar hoje, toda uma geração criada na era da livre expressão, a entender, compreender e aceitar o que se propõe a partir de agora.

Concordando-se com Gardner, acredita-se necessário haver uma boa compreensão por parte de todos, das potencialidades que o domínio da questão artística tem a oferecer ao indivíduo. Não somente quando ele é criança, mas também em sua vida adulta.

Desenhar estimula a capacidade de enxergar além, perceber e não somente de ver. Enxergar as partes e entender como delas se faz o todo. Sintetizar, se necessário, detalhar, se preciso. Desenhar aumenta a percepção do homem sobre seu espaço, suas relações com o mundo, sua comunicação e entendimento de si mesmo.

Acreditamos que o estudo, a compreensão e os resultados obtidos quanto ao desenho da criança está diretamente ligado à maneira com que o adulto vê e interage com o assunto. As posturas adotadas pelos pais e sistemas educacionais interferem na produção gráfica infantil, pois ela não tem como escapar das conseqüências do direcionamento que o adulto lhe dá, mesmo quando aparentemente ele procura a deixar livre. Por isso, o papel do adulto precisa ser muito bem definido e esclarecido. Professores e pais precisam entender urgentemente o peso que têm neste processo, para poderem agir de maneira a contribuir, orientar, e não limitar.

Acreditamos que o ser humano tenha em si, mesmo que não demonstre, todas as capacidades. Seríamos como um grande armário cheio de gavetas, que contido nelas estão a habilidade de lidarmos com todos os tipos de conhecimentos neste mundo. Gardner teria apontado somente uma pequena parte dessas potencialidades. Nascemos com algumas dessas gavetas trancadas definitivamente por toda nossa existência. Mas elas estão ali. A maioria das pessoas as mantém assim, explorando apenas aquelas que já vem biológica e geneticamente predispostas a se abrirem. O meio também atua nesse processo, e percebemos isso claramente quando, por exemplo, à custa de muito esforço nos percebemos dominando e fazendo coisas que jamais imaginamos sermos capazes de realizar. São gavetas fechadas que foram abertas. A chave para abrirmos essas gavetas é o conhecimento, e assim acreditamos poder ser desenvolvida a habilidade gráfica no indivíduo. Ela já está lá, presente. Seríamos capazes de realizar qualquer tarefa, mas isso, infelizmente, às vezes fica limitado devido a fatores sociais, ambientais, distúrbios psicológicos, deficiências físicas e mentais. No que se refere à capacidade de desenhar, seguindo essa linha de raciocínio, concluímos que todos os indivíduos já nascem tendo essa gaveta semi-aberta. Afinal, todos fazem uso do desenho em sua infância, e cabe ao adulto proporcionar à criança a oportunidade de abri-la totalmente, explorando todo o potencial oferecido pelo fato de que essa gaveta já está em contato com o mundo e não trancada.

O abandono do desenho que se verifica acontecer na adolescência, seria também o abandono do uso de uma linguagem. Estamos abdicando da possibilidade de nos expressarmos ao abandonarmos o desenho. Estamos permitindo que nossas crianças desistam de usar a expressão gráfica. E o pior, aceitamos isso como algo natural, afinal, se depois da adolescência o indivíduo não desenhar, é por que, realmente, ele não “tinha o dom”. A necessidade de representação do real, que se discute e não se concluiu até hoje, ser natural ou incutida na criança por uma questão sociológica, e a falta de direcionamento para que a criança seja capaz de realizar esse trabalho, nos trás o cenário visto hoje. O desenho é considerado uma habilidade somente ao alcance de quem já nasce para isso.

Acreditamos que não, que o desenho é uma linguagem muito especial, assim como disse Mèredieu, e nos utilizarmos dela por toda a vida só poderia nos trazer benefícios.

Buscou-se através dessa monografia o entendimento de um processo histórico de desenvolvimento de um tema e concluímos que esse objetivo foi alcançado. Agora, esta pesquisa levará o leitor se perguntar, “Mas, o que vem depois?”. O que será que está sendo discutido acerca desse assunto tão apaixonante exatamente agora, e que mexe tão profundamente conosco e com a nossa identidade. Afinal, todos já fomos crianças um dia e sem dúvida nenhuma, embora talvez não nos lembremos como, utilizamos o símbolo gráfico para nos expressarmos. E descobrir a quantidade de significados contidos neles, que nos contam histórias de nós mesmos, acaba por nos deixar tristes a lembrança que todo esse material está perdido lá no passado. Com certeza, o material dos nossos filhos será guardado e lido muitas vezes, pois a contribuição maior desse trabalho consiste em alertar os colegas professores e pais para o fato de que há um universo escondido no meio daqueles traços, pedaços de papel, lápis e giz, e que realmente vale a pena nos alfabetizarmos na língua que nos permite entender e participar desse universo.”

Conheça minha monografia na íntegra aqui.

Os desenhos de criança da filha

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Por tudo isso, com certeza a forma como conduzo o contato da minha Juju com sua capacidade criadora é bem especial. Desde muito cedo dou a ela cadernos para rabiscar muito. Incentivo, ajudo e interfiro na medida que julgo correta. Nunca desenho PARA ela e sim COM ela. Os grandes marcos, quando ela demonstra entendimento e avanço especial são registrados, como o primeiro desenho onde representa a família – Júlia, Papai e Mamãe, como ela mesmo explicou, feito aos 2 anos e 6 meses. A cada período que acabam-se os espaços e folhas em branco dato o material e vou guardando, numa compilação que vai preservar e documentar todo seu processo.

E com certeza, assim que eu puder, vou transformá-los em livro, como esse lindo trabalho feito por uma outra mãe desenhadora, que pelos projetos que desenvolve babo e me inspiro sempre – http://paisleepress.com/2012/04/mini-masterpieces-the-photobook/

E tem coisa mais de mãe que mostrar os lindos desenhos que a cria faz?

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