Coisas que a mãe pensa quando pensa em como educar – os livros e as Jujus

Livros, livros, livros. Se tem uma coisa que eu sempre amei foram os livros. Pegar, ver a capa, quarta capa, orelha, abrir com ansiedade o miolo e viver a expectativa de ver o que há de novo a cada página virada, de descobrir o universo que se revela a seguir.

Uma historinha rápida para explicar essa relação.

Em minha casa, quando eu era criança, expostos na estande da sala não haviam livros. Orgulhosamente nela estavam os troféus que meu pai, pecuarista, arrebanhava mundo agro afora com seus lindos cavalos de raça e bois premiados.

Havia sim, na verdade um grande tesouro escondido na parte inferior fechada da tal estante preta. Desde que eu me entendo por gente tenho a lembrança da existência da Enciclopédia Disney Ilustrada com 9 volumes que certo livreiro um dia deixara em minha casa para minha mãe comprar, mas que seria devolvida na sua próxima visita. Isso fica um pouco embolado em minha memória, mas acho que meu pai não tinha autorizado a compra. Era muito caro e eu ainda muito bebê para aproveitar alguma coisa. Não se podia tocar no tesouro. Era preciosíssimo. E não nos pertencia, ponto final.

E o tempo passava, mudávamos de endereço várias vezes e o tal livreiro nunca vinha buscar a coleção. Mas ele continuava intocado, e mesmo com meus apelos, minha mãe preferia não mexer no pacote proibido. Melhor assim. E se o tal do moço nos achasse – afinal a cidade era um ovo – e aparecesse dia desses para buscar conforme combinando?

Era todo embalado num grande plástico, e ainda fascículo a fascículo. Lindamente encadernado tinha toda sua borda pintada de dourado, e visto desse angulo, reluzia como ouro. Os fascículos tinham como assunto os temas: 1 – Construções e Transportes, 2 – Zoologia, 3 – Geologia e Botânica, 4 – Grandes Aventuras e Mitologia, 5 – Ciências, 6 – Biologia e Folclore, 7 – Geografia Humana, 8 – História e 9 – Arte. E as ilustrações de capa contavam com os personagens da Disney, o que contribuiria para deixar tudo ainda mais curioso aos meus olhos de criança.

Mas passaram-se ainda mais anos, e eu pouco a pouco fui conseguindo demover minha mãe de sua postura irredutível, e ir abrindo cada livrão, como quem escava um tesouro, cometendo um pequeno delicioso delito infantil. Não estou falando de poucos anos, mas de uma infância inteira para ir conquistando cada jóia que, eu, menina-pirata, havia desenterrado no meio de minha sala. Engraçado é que as taças prateadas e duradas reluzentes de meu pai (o verdadeiro tesouro da casa) ficavam em cima dele, marcando como que com um grande X de ironia a situação toda.

Quando comecei a abri-los ainda não sabia ler, mas mesmo assim, a forma rica e lúdica como as páginas eram ilustradas sobre os temas propostos, acompanhadas dos personagens todos que eu já conhecia – como a turma do Pato Donald, as princesas da Disney (que ainda não eram uma gangue de vender coisas para meninas), os Tio Patinhas, Metralhas e Cia, Zé Carioca e outros bichos disneyrianos – tudo, tudo tornava os livros mais interessantes ainda. Primeiro, “lia” somente as figuras. Depois alfabetizada, pude finalmente ler de verdade e entender que cada capítulo era um grande diálogo/aula e uma viagem dos personagens infantis no tema proposto.

Numa época onde o conhecimento do mundo podia caber sim num calhamaço de papel de 15 kg, aquela enciclopédia era uma janela para o mundo. Eu era uma menina que morava ora na cidade, ora na roça, nos confins de Minas Gerais. As mudanças aconteciam aos sabores dos bons ou maus negócios que meu pai fazia – a situação “apertava”, arrumava “as malinha” e “vai nóis de vorta” mudar para roça, o que eu odiava, pois queria ficar na cidade, onde todo mundo morava. A tal enciclopédia era uma boa companhia na falta de vizinhos pra brincar.

Minha mãe nunca imaginou e talvez nem saiba ainda hoje o quanto ela foi importante para minha formação cultural. Eu mesma só me dei conta disso muito mais tarde. E a forma como tudo se deu talvez tenha servido pra eu valorizar tanto a leitura e o conhecimento. Aquilo era algo a ser conquistado, uma vitória a cada livro aberto. Foi sem dúvida o tesouro mais importante da minha infância.

E o que isso tem a ver com CoisasSódeMãe?

Várias coisas, uma delas conto depois. A outra é que me questiono como vou conseguir transmitir esse mesmo valor que eu atribuo a leitura e ao conhecimento a minha Júlia, que aos 1 ano e 9 meses já brinca com IPad e tem uma pilha de livros fartamente ao seu alcance, tanto no seu próprio quarto quanto na sala – e eles não estão dentro da estante. Como transferir essa bagagem para ela, me pergunto? Alguém pode palpitar?

Meu Deus, quantos desafios essa vida de mãe nos traz.

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