Coisas de primeira vez 3 – primeiro “efeito bebê” negativo vivido

Durante a gravidez e primeiro ano do bebê, parte da humanidade parece que muda sua atitude com a gente. Sorrisos embevecidos, abordagens carinhosas de estranhos que nunca acontecem em outros momentos da vida e um pouco mais de gentileza nas atitudes acometem as pessoas a nosso redor, graças a Deus, porque realmente precisamos disso. Quando o bebê cresce um pouquinho e começam as primeiras birras e teimosias em público, esse quadro todo de amabilidade muda dramaticamente, como naquela história de estarmos na fila do supermercado domando nossa ferinha que quer a todo custo tocar as teclas do PDV do atendente, e atrás de nós, olhares impacientes nos alvejam com fúria: “Controle seu pirralho, controle seu pirralho e ande com esse pagamento que estou com pressa!”, rsrsrsrs.

Só que mesmo durante esse “período mágico” entre a gravidez e o até o bebê começar a se “manifestar”, coisas ruins nesse sentido também podem acontecer. Aliás, a gente até sabe que vai rolar hora ou outra, mas quando acontece, bate um sentimento estranho de frustração, rejeição, e dói, carambola! Sentimento instintivo básico de proteção da cria!

Comigo a primeira vez foi numa viagem de avião. Eu, sozinha com Juju, partindo de Brasília até Campinas, me dirigi ao meu lugar e me sentei em minha poltrona da primeira fileira, privilégio gratuito de poucos e pago de alguns. Fileira de três poltronas, marcado eu na janela com Juju, uma poltrona no meio vazia e um senhor, na poltrona do corredor. Tinha uns 50 anos o homem, sério, cara fechada lendo um livro, com certeza do time dos que pagaram um pouco mais para estar ali naquele espaço privilegiado. Mas eis que da parte dele, nem um olhar, ou bom dia, ou resposta ao meu “com licença” e “desculpe incomodar”, ao passar e acomodar minhas mili bolsas de mãe.

Me acomodo com minha pequena, que na minha concepção e para meu orgulho de mãe-corujíssima, está se comportando lindamente… entre as nossas duas cadeiras há uma vazia. Eu espero o avião decolar para ter certeza de que não há reserva para a poltrona e (indevidamente, atrevidamente, abusadamente seria?) acomodo minha Juju nela. Converso, brinco, abro a revista de bordo, dou o brinquedo, seus livrinhos e em último caso, saco o IPad com o volume no mínimo, e ela se entretém, respondendo bem aos meus estímulos e esforços no sentido de termos uma viagem calma de mais de 2 horas de volta pra casa.

E não é que de repente o taciturno senhor, que não tirara a fuça de um livro para nada até então, chama a aeromoça, pergunta algo e após resposta afirmativa, se retira, mudando de seu lugar privilegiado na primeira fila para uma apertada poltrona que esteja vazia e perdida em alguma fila traseira?

Bom, não devia, mas fiquei abalada. Meu Deus, o que eu estava fazendo de errado? Será que incomodamos seriamente o homem? Cheiramos mal? Somos pária?

Não, ele é apenas mais um do time dos “NO CHILD-FRIENDLY”, em tradução livre “NÃO GOSTO DE CRIANÇA, NÃO ENCHE O SACO”, a qual pertence aquela outra parte da humanidade citada no começo do texto.

Foi a primeira vez que aconteceu tal situação comigo e com minha pequena e confesso que demorei um bocado para digerir o acontecido. Demorei para me lembrar que até pouco tempo atrás talvez eu mesma me enquadrasse nesse outro lado e tivesse agido (quase) da mesma forma, se tivesse que ficar 2 horas ao lado de uma criança de menos de um ano durante um vôo, onde meu único interesse seria o de ver a viagem terminar logo e para isso me distrair conseguindo degustar tranquilamente uma boa e ansiada leitura.

Eu nunca tive muita sintonia com os pequeninos e suas mamães. Era aquela moça para a qual os bebês olham e choram ou ignoram. Eu não tinha muito direito a sorrisos infantis, talvez não fizesse muito por merecer. Não que eu não tentasse, mas simplesmente não acontecia, ou acontecia muito raramente. Trabalhei anos no McDonalds, e nunca consegui animar uma festa infantil como muitas colegas o faziam com uma competência absurda, rsrsrs. Comigo não funcionava, eu não conseguia.

Esse episódio me fez refletir e passada a “raiva” inicial do tal senhor, me acalmo e entendo bem que esse Papo&VidadeMãe+FilhosPequenosPeloMundo interessa somente, tão somente aos que estão na mesma sintonia. Aceito que as pessoas que estão em outras sintonias, que nos dias de hoje são muitas por aí, não são más, não são pessoas horríveis, como a princípio enxerguei o senhor que se incomodou comigo e com minha bebê. Seus motivos podem ser tantos, justificáveis, humanos, que a mim cabe aceitar sem questionamento nenhum, tolerar profundamente mesmo.

A vida do lado de cá da maternidade é muito diferente da de lá, e a quem escolher não passar para essa zona, meus respeitos, mesmo. Vocês estão fazendo um bem imenso ao planeta ao decidirem não colocar mais gente ainda nesse mundo, superpopulacionando a pobre mãe Terra. Não me incomodarei com sua indiferença, afastamento ou mesmo com uma reação extremada de horror ao cruzar comigo e com minha “pirralha” e nossos momentos derramados de mãe e filha pelo mundo. Desculpe incomodar, demorar mais para seguir, fazer tanto barulho, tomar tanto espaço. Eu mesma já estive no seu lugar e não tinha muita paciência com o outro lado. Mas, hoje, pessoalmente, estou muito mais feliz com minha nova posição nesse jogo. Nele eu sinto ganho muito mais, todos os dias!

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