Coisas que penso sobre essa história de ter filhos – 1

Lendo a matéria de capa da Revista Crescer de novembro de 2011, que fala do malabarismo das mães em equilibrar carreira e maternidade, tem uma colocação interessante da Denise Fraga que diz “A gente faz parte de uma geração de pais deslumbrados com a paternidade. Para minha mãe e minha avó, os filhos eram uma consequência. Na nossa geração, se escolhe ter filho ou não. E, quando a gente tem, geralmente mais velha, parece que chegou o “enviado”, “o cordeiro de Deus” (risos). A gente sublima a maternidade, põe num lugar sagrado. Lindo. (…)” – veja a entrevista em
http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/1,,EMI276515-18514,00.html

Essa questão abre várias linhas pra gente pensar. Seguem três delas:

1 – Pra mim, nunca foi fácil celebrar um nascimento que não tenha sido desejado, planejado. Se tem uma postura que eu defendo é que deveríamos ser mais muuuuuuito mais responsáveis e fazer gente direito, pra ser cuidado, educado e amado e não “despejado” no mundo. Filho é o “ato” mais sério e comprometedor que podemos “cometer” nessa vida. E vivemos num tempo onde isso não somente é possível, como uma obrigação, justamente porque filho não deve ser conseqüência. É vontade, desejo concretizado, ou deveria ser. Se não é uma escolha consciente de vida, não deveria acontecer. Nessa onda de Reality Shows da vida, tem um só na minha opinião que presta pra alguma coisa e que deveria estar na TV aberta. Se chama “16 AND PREGNANT”, Grávida aos 16. Tem um recurso interessante que eles usam ao longo do desenvolvimento da história que é um gráfico onde mostram uma a uma as concessões que a adolescente ter que fazer com chegada do bebê. É um exemplo pontual, e aborda a questão da maternidade na adolescência, mas deveria ser visto por mais gente, pra fazer pensar melhor. Num outro post afirmo acreditar ser um desperdício enorme abrir mão nesta vida do “privilégio” da maternidade, mas isso tem que vir num pacote, tendo um marido ou companheiro/companheira disposto a dividir tudo + condição/estrutura financeira + física + emocional. Filho dá trabalho integral, initerrupto, forever. Se não tem o pacote completo, se não tá a fim ou realmente não pode assumir isso, é melhor pensar bem e não fazer. Sem culpa, sem cobranças. A humanidade agradece.

2 – Sempre achei que temos muuuuuita sorte de viver nesse nosso
tempo. Há bem pouco tempo atrás, o casal se apaixonava, e ficava naquela  expectativa louca pra casar, pra poder finalmente consumar aquele amor todo. Você casava com uma pessoa: tudo novo, festa, cerimônia, pompa, lua-de-mel. Antes, ambos livres de preocupações maiores na vida, leves, tranqüilos. E em pouco tempo, não tinha jeito: a linda magrinha mocinha engravidava e então o jovem casal apaixonado passa a serem pais. Noites insones, responsabilidades mil, gastos sem fim. Passam a ser pai e mãe! E
aí a coisa pega.
A mulher engravida e se transforma. A gravidez pode não ser doença, como dizem os que querem igualar esse período a qualquer outro. Mas não é MESMO. Gravidez mexe com a mulher de A a Z, da cabeça aos pés, de cabo a rabo, literalmente! Tem estudos por aí dizendo que a gravidez modifica as estruturas cerebrais da gente, pra nos preparar para cumprir esse papel como manda a natureza. A doce mocinha vai se transformando. Por vezes quer assar o marido ou o mundo inteiro na grelha. Com algumas mulheres, coisas estranhas acontecem na gravidez, como por exemplo um certo olfato ultra-sônico que as vezes chega a barrar o marido de se aproximar da esposa. A mulher no último mês está cansaaaada, precisa dormir mais, mas não consegue dormir por que está muito ansiosa, incomodada com os xixis sem fim, com a falta de posição confortável para acomodar barriga, com as costas doendo e o resto todo que está inchado e formigando… Nasce o filho e a transformação é maior ainda. A criança nasce e na verdade, a princípio só tem demandas: alimento, aconchego, segurança, saúde, cuidado e atenção integral, e muitas, muitas, muitas outras coisas. Acontece um primeiro período de adaptação onde o bebê tem que se acostumar com um mundo hostil e diferente demais do que estava acostumado na barriga da mamãezinha dele. Os pais tem que aprender como lidar com esse serzinho que acaba de chegar, conhecê-lo, entendê-lo. E isso não é automático mesmo, como romantizam por aí. O bebê chora, exige, cobra e a gente não tem tempo pra mais nada, só pra cuidar da cria. Estamos nos restabelecendo do parto, das marcas da gravidez, que não são somente algumas estrias e quilos a mais e sim uma reestruturação psicológica e hormonal maluca. E esse marido tem que amar muito essa companheira, estar de acordo com essa mudança toda que vem por aí e querer muito assumir a paternidade. Passar a conviver, aceitar e colaborar positivamente com tanta novidade. Imagina o baque quando isso era consequência irremediável do casamento e não uma escolha consciente e planejada? Heim, heim, heim???
Isso porque falei de uma época em que mocinhas e mocinhos se casavam porque se apaixonavam. Indo um pouquinho antes dessa época, onde os casamentos aconteciam por outros motivos – os mais diversos – e as mulheres passavam toda sua idade produtiva tendo filhos, porque não dava para parar “o processo”, imagina só a tragédia particular de cada mulher/mãe? Uma vida inteira engravidando, cuidando da prole, sem nunquinha ter acesso a algo que se parecesse com um ginecologista (ou terapeuta, rsrsrs). Terrível não? Isso falando só de umzinho aspecto básico da coisa toda.
Pensando nisso, passei a entender o papel das “casas de tolerância” e aquelas “outras mocinhas da vida”, que desempenhavam um outro papel nessa história. Serviam para ajudar os papais/senhores da família a tolerar o quê? Pensem bem.
Então, acho que assim fica mais fácil amar o tempo louco em que vivemos.

 3 – Como nossa geração escolhe, muitas vezes nos deslumbramos  mesmo com esse momento. Como foi uma decisão tão ponderada, pensada, as vezes adiada, assustamos e irritamos muito as pessoas pela forma exagerada com que vivenciamos tudo isso, com nossos cuidados e preocupações em relação a gravidez e ao filhote.
Precisamos conciliar essas nossas questões principalmente com os vovós, vovôs e titias queridos, que vêem tudo de forma bem mais simples que a gente e que devem ter vontade de nos pegar de coro muitas vezes.
É preciso exercitar a paciência e entendimento da visão do outro, a tal da empatia. E isso não tem jeito, vai caber a nós. Entender que cada um vê a vida do seu ângulo, analisa de acordo com sua experiência e bagagem. A gente ter consciência disso pode ajudar a evitar alguns embates desnecessários.

Muita calma, paciência e tolerância, mamães!

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  1. Ainda bem que vc leu o “Caderno Equilíbrio” da Folha de São Paulo de 07/06/12. Penso que os textos das páginas 7 e 8, complementam esse seu texto. Vc deveria colocá-los aqui.


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